Se eu quero dilatar, e espraiar o pensamento pela ordem politica, e social em que os homens existem, ainda se torna mais patente a desgraçada condição da incredulidade, que ousa taxar-nos de irracionaes, e até mentecaptos. Veja o Mundo espantado, vejão os homens todos assombrados com o medonho quadro que lhe offerece a consternada Europa depois que rebentou o Volcão revolucionario, se he fazer bom uso da razão natural, ter preparado com sofisticas idéas de igualdade, e de liberdade o{70} caos em que se afundárão todas as Jerarquias, todas as Classes, todas as Instituições, todas as Leis, que o pezo dos Seculos, e a vontade unanime, e universal dos homens havião sanccionado? He fazer bom uso da razão perturbar de tal maneira a sociedade, a titulo de lhe buscar em hum novo estado, e em huma nova ordem de cousas huma prometida, mas fantastica felicidade? Que procedimento tão chegado á razão, soltarem-se sanguinarios Tigres, e levados do instincto, ou da força de nunca vista ferocidade, derramarem rios de sangue, não só pela terra que os vio nascer, mas quasi por todo o globo atonito á novidade de scenas tão barbaras, e tão atrozes, vendo que ellas forão preparadas, conduzias, e executadas por aquelle mesmo Filosofismo orgulhoso, que se dizia regenerador do Mundo, e salvador da razão aviltada, e abatida aos pés do Fanatismo, e da Suprestição! He fazer bom uso da razão natural, preparar{71} a assinte sobre as ruinas de Thronos, e sobre reliquias de Nações esmagadas, o Throno, ou as bases para se levantar o Colosso do mais atroz, e escandaloso Despotismo que vio o Mundo em os annaes da Tyrania! O que os nossos mesmos olhos estão vendo, e o que nós tão desgraçadamente temos sentido não exige mais próvas, e demonstrações; as lagrimas que temos derramado, o sangue que temos vertido, os males pezadissimos que temos suportado, mostrão bem a que ponto de melhoramento chegára o Mundo politico pelos esforços dos livres pensadores que tanto exaltão, e apregoão o bom uso da sua razão, e tanto taxão o nosso procedimento de hum rematado desvario.
E podereis dizer, malevolos, e publicos perturbadores da paz, e do socego das Nações, que o verdadeiro fiel faz máo uso da sua razão, em quanto permanece tranquillo naquella situação em que o constutuio a{72} Providencia, sugeito como lhe manda a Religião ás Potestades dominantes, sem murmurar, sem innovar, sem rebelar, reconhecendo na suprema Jerarquia a authoridade emanada de Deos. Quando se vírão, oh Ceos! Com que pejo o digo! Quando se vírão em Portugal tantos pérfidos, tantos traidores votados já á execração, e indignação publica, pelas decisões de rectissimas Sentenças? No Seculo do illuminismo, em que se diz se levantára o bom uso da razão sobre o abatido fantasma de velhas preoccupações. E he fazer bom uso da razão natural, conjurar contra a propria Patria, contra a propria Nação, querer lançar-lhe ao colo os ferros de hum Tyranno, despoja-la de sua gloria, soberania, independencia, representação, e grandeza? Será fazer bom uso da razão natural attrahir sobre a propria cabeça os males que preparavão aos outros? Será fazer bom uso da razão natural sacrificar a hum monstro que permanece em huma{73} absoluta ignorancia da sua existencia, a reputação, a liberdade, o estabelecimento, e a ternissima posse daquella Patria, e daquelle Reino que lhes deo o berço? Confronte-se o uso da razão que fazem estes profundos pensadores, com o uso da razão que faz o honesto Cidadão, ainda que seja o mais ignorante, e idiota, e conhecer-se-ha com evidencia de que parte esteja a vantagem.
Mas he tão grande, e tão profunda a cegueira, ou a pertinacia destes monstros, que nenhuma razão os convence, porque huma alma malevola não dá entrada á verdadeira sabedoria. Fieis, fechai os ouvidos aos enganadores discursos dos impios, debaixo de sua lingoa existe o veneno dos áspides, elles errão, e errarão sempre, erraverunt ab utero, locuti sunt falsa. Fugi do precipicio a que vos conduz sua revoltosa doutrina. Sabei que não querem Throno, não querem Altar, não querem Leis. Segui as maximas celestiaes da Religião,{74} cujas luminosas provas longe de aviltarem a razão, a enobrecem, a purificão, a exaltão, e fazendo o verdadeiro homem de bem na terra, em quanto o tornão virtuoso, nos assegurão, e affianção huma eterna Bemaventurança.
Disse.