—Ai, deixe lá, Snr. Alberto, gente que se não entende, que falla uma algaravia...—
—É a sua lingua, o seu idioma.—
—Pois sim, não digo menos d'isso; mas estou com a D. Ermelinda, não engraço com a tal ingleza, que chama á gente senhorra... senhorra! ora que desconchavo!...
—Nem sei como o Dr. se namorou d'aquillo! Elle ha gostos!...—
—Pois vivem muito bem, um casal modelo...—
Ermelinda replicou:
—bem se fiava n'essas; haviam de ter as suas, todos as tinham—
E passavam-lhe pela mente as questinculas futeis, que tão frequentemente se levantavam agora entre os dous, enevoando-lhes o sol da harmonia, distanciando-os em espirito, desatando-lhes a alma n'um relaxamento indifferentista.
Disseram-se adeus; beijocaram-se, o Alberto um grave aperto de mão. O Tótó impacientava-se, um rosnar regougado, até que sentiu em baixo bater a porta da campainha, e viu a D. Clementina sentar-se no sophá, saltitando então, satisfeito, o nariz afilado, procurando o calor das saias, muito cadongueiro, uns latidos meigos.{126}
Ficava o mar em frente. Um sussurro monotono, cheio de casta poesia, a alma do gigante a segredar queixumes, beijando a praia com um amor voluptuoso, em beijos nevados, de espumosa prata; e abrindo sobre o largo as janellas da casa do Doutor, a namorarem a luz, a perfumarem-se das emanações iodadas das plantas marinhas, rasgadas ao alto, umas cortinas de cassa a toucarem-as pudicamente.