—Não entendia nada do lyrico, antes os cavallinhos, as operetas; mas era moda; precisava a gente impor o seu bocado, chamar-lhe-iam urso.—
Ermelinda inclinava o corpo, uma agitação inquieta, um desejo de ser notada, cumprimentada. O Carvalhinho ao vel-a fizera descrever ao seu chapeu uma curva graciosa, muito reverenciadora; e logo o Luiz Serra e o Juca Mendes, e os amigos do Alberto, os dandys que estacionavam pela superior.
O commendador voltara-se tambem por sua vez; um sorriso amavel, luminosas facetações de brilhantes no peitilho da camisa.
Regosijava-se. O Alberto mesmo sentia-se jubiloso em reflectir sobre ella as saudações dos seus conhecidos, dando-se um ar de importancia, de popularidade, no seio do hig-life.
Um camarote abriu-se; uma mulher entrou, uma grande frescura de mocidade, o assetinado do poudre de riz, amaciando a côr trigueira das faces. Vinha só; um vestido elegante, de faille preto, guarnições de setim, o decote aberto n'um{137} impudor provocante, o cabello negro frisado, uma risca rosada separando dous bandós reluzentes. Brilhantes nas orelhas, irisando a luz, e um olhar quebrado, na doçura amortecida d'uns cilios negros, tendo ás vezes umas ironias relampejantes, d'um cynismo deshonesto.
Poisou o binoculo no rebordo do camarote, a luva branca de canhão comprido, a enroscar-se n'uma pulseira d'ouro, o leque n'uma agitação lenta.
—Quem é aquella, Alberto?
Olhou na direcção indicada; fez-se vermelho, um rubor de collegial apanhado em flagrante, e para disfarçar:
—Não sei, não conheço! Ora deixa ver o binoculo.—
O pano subia, a attenção de Ermelinda desviou-se para a scena; appareciam umas arvores seculares, o baixo cantando uma canção monotona, e logo depois o tenor, um typo gordo, umas notas desafinadas que a plateia recebeu com murmurios de censura.