Mas elle, não desfitando o binoculo, o espirito preso a uma corrente de ideias bem diversas d'aquelle meio, absorvendo aquella mulher atravez das lentes, fazendo uma analyse demorada de todos os seus encantos e de toda a sua toillette, um prazer voluptuoso em sentir-se attrahido:

—Mas é a Annita, não tem que ver!... que luxo!... onde iria ella apanhar o pato! E mais bonita, sim, mais bonita! Até mais gorda; eu bem o previa, que a gordura havia de a aformosear!—

E recordava as suas convivencias passadas, a{138} atmosphera quente de bordel onde a conhecera, a sua inclinação, aquellas ceias em que bebiam champagne e adormeciam ébrios nos braços um do outro, os requintes de lubricidade, em que se juravam amor

—e a pequena, que faria ella da pequena?—

Esquecia-se de que tinha Ermelinda junto de si, a imaginação engolphinhando-se nas anfractuosidades do seu passado, a scena ultima, sobretudo—aquella scena que os tornara talvez irreconciliaveis para sempre.—

—Mas o pato, o pato, quem seria!—havia de sabel-o e d'ahi quem adivinhara, talvez que ella ainda lhe tivesse alguma dedicação.—

O pano cahiu. Uma pateada á ultima area do tenor.—

—Ia fumar um pouco, vinha já, se ella queria tomar alguma cousa—

—não, não, pódes ir,—e vendo ainda aquella mulher no camarote fronteiro

—Então conheceste-a?