Andava hypocondriaco, tinha distracções imperdoaveis, os empregados do banco chegavam a ter por elle um sorriso de commiseração, quando o viam errar a mais simples conta de sommar.

O commendador chegou mesmo a provocal-o a uma confidencia,

—Anda tão abatido o amigo Jorge!

—Vai-se andando, vai-se andando.{170}

—Trate de si, homem.

—Um pouco adoentado, realmente um pouco adoentado.

—Vão-se os anneis e fiquem os dedos, você me entende, hein... quem cá ficar que se arranje...

No espirito do Jorge esta phrase cahiu como uma gotta de metal em fusão.

—Quem cá ficar... ah, sim, ficava ella, se elle lhe faltasse de um momento para o outro... e sem amparo a pobre da rapariga, de mais a mais com a pequerrucha... n'elle nem queria pensar... estavam servidas as pobresinhas... ainda se lhes podesse deixar muito... mas as cousas estavam tão mal, os primeiros passos errados haviam sido como um meandro, que o envolvera... agora sim, era ver se lhe podia salvar algum bocadito... mas para isso só a separação de pessoa e bens... uma vergonha, Jesus, o que lhe estava reservado para o fim da vida.

Alheava-se n'estas considerações, um olhar espantado, d'uma tranquilidade triste, quando via a Ermelinda curvando-se sobre o berço da filha, fazendo umas festasinhas chilreadas á creança.