A Rosina não desanimava porém, estendia o bracinho curto, queria apanhar-lhe a Suissa que voejava por sobre o collarinho, balbuciando a palavra—Avô,—chamando-o com imperio, querendo subjugal-o ao capricho da sua pequenina vontade.
Entrava n'esse periodo gracil da infancia, em que os mais indifferentes abrem um sorriso ás suas irriquietas travessuras, aos lampejos vibrantes das suas phantasias de baby.
Ermelinda approximava-se d'ella mais; exhultava porque tivesse passado esse longo estadio de trabalhos e canceiras obscuras, e habituava-se agora a vel-a como um pequeno figurino trajando o costume da sua phantasia, uma boneca que ella tinha de enfeitar pondo n'isso toda a sua vaidade de mulher e de mãe. O Alberto mesmo demorava-se um pouco mais depois do jantar, a carne feliz d'uma boa digestão, alegrando-se de ouvir chilrear aquelle passarinho as notas phantasiosas d'umas mentiras imaginaveis.
—Diabo da pequerrucha era mesmo um encanto—e como ella inventava umas historias sem pés nem cabeça.—
A Rosina parecia pois pouco a pouco ir estabelecendo a harmonia entre os dous; esqueciam-se de si, a attenção convergindo para a filha, surprehendendo-se até de se verem agora tão amaveis,{173} admirados de que houvessem adormecido aquellas disputas incessantes que até ahi os divorciavam em recriminações asperas e molestas.
Mas este periodo não se prolongou muito. O Alberto uma noite entrou tarde; por acaso o Jorge tinha-se encontrado mal. Ermelinda estava ainda a pé; e quando o viu chegar, uma esfusiada de ironias a atacou.
—Bonito, não tinha duvida! Tres horas da manhã!... em casa tudo tinha andado em afflições, e o estroina lá por fóra... nas orgias... um bello comportamento de homem casado... o pae doente, tão mal, sem haver quem fosse chamar um medico... realmente...
Encolheu os hombros, friamente, resistindo na armadura d'uma indifferença fingida áquelle assalto de palavras irritantes.
Mas ella continuou, um phrenesi insaciado:
—Isto só no inferno, só a minha paciencia! Mas é de mais, todas as cousas teem um termo.—