—Eu velarei por ellas, descance, não tenho familia, serão a minha, amigo Jorge, vamos... coragem, isso passa...—

Mas o doente abria desmedidamente a bocca n'uma ancia de ar, os olhos voltavam-se nas orbitas, no estrabismo da agonia, um apagar da scintillação da vida, as mãos avincando-se como que procurando alguem.

O commendador chamou para fóra.

Veio o Alberto, a Ermelinda, a Joaquina. O Jorge exhalava o ultimo suspiro.

—Meu pae, meu paesinho, olhe sou eu, é a sua filha, tem ali a sua netinha...

O Alberto teve uma phrase sonora.

—Já te não ouve, Ermelinda.—

Um deliquio sobreveio, o rosto impallideceu rapidamente, e cahiu nos braços do commendador, que a amparou n'uma grande atrapalhação carinhosa, o espirito desejoso de prestar todas as consolações de affecto áquella mulher, que pela primeira vez sustentava nos seus braços, na mais critica das occasiões, quando o corpo do pae ainda quente lhe parecia lembrar na baça fixidez do seu olhar cadaverico, que velasse por ella, por aquella desgraçada...

Encheu-se de gente a casa; veio a D. Gabriella, a D. Clementina, a familia do Mendes, a Amelinha{179} Bastos; todas porfiavam em prestar os seus serviços, installando-se provisoriamente, rodeando Ermelinda de consolações banaes, e murmurando entre si, calculando o estado de fortuna em que tinha ficado, commentando a morte do Jorge, muitos incidentes miudamente accumulados—

—que ainda ha pouco tempo andava tão bom.—