—Melhor, realmente! Isto ha-de ir indo, ha-de ir indo.—
—Coragem é o que se quer.—
O Jorge permaneceu calado; um pensamento agitava-lhe a imaginação.
—Se não fossem ellas, commendador!—bem me importava a mim a morte.
—Deixe essas ideias, ouviu, isso lhe prejudica.—
—Não posso, quer que lhe diga, não posso, levo-as aqui atravessadas—e apontava para a garganta, como se um obstaculo invencivel estivera lá collocado.—
—Mas então... se por fatalidade isso acontecesse, o que está muito longe de ser, ellas ficavam amparadas, ein!... quantas desejariam ficar assim.—
O Jorge quedou silencioso; dentro do seu espirito uma onda de verdade se agitava; mas o seu egoismo, a confissão do seu infortunio, um quebranto de cobardia sopesavam-o com toda a força. Depois, abruptamente, como quem atira de si um fardo pesado:
—Oiça, commendador; eu sei que é meu amigo; Ermelinda é infeliz, ella... coitada, digna de tão boa sorte... e depois sabe... o banco... ai, não posso, não posso... e uma dor sobre o coração fel-o contorcer n'uma agonia violenta, a{178} falta de ar reapparecia, a respiração agitava-se frequente.—
O commendador amparou-o, tinha palavras de consolação, d'uma sinceridade leal, n'aquelle momento em que presentia que um moribundo se debatia nos seus braços.