—e realmente o commendador tinha o feitio d'um pucaro; havia de chamar-se d'ora em deante o commendador Pucaro.—
Uma risadinha abafada acolheu o dito; a D. Clementina riu forçadamente para fazer côro, mas lá no seu intimo mordia com ferocidade o espirito d'aquellas pedantes,
—umas tolas, capazes de festejar o pucaro... se elle lhes acenasse com a sua riqueza.—
Dentro, na saleta armada em camara ardente, o cadaver estendia-se na sua immobilidade, o{181} rosto lividamente esbatido na reflexão dos lumes de cera, de casaca preta, o chapeu alto sobre o ventre, o braço esquerdo rigidamente estendido ao longo do corpo. Um criado do armador espevitava as velas, com uma grande indifferença de habitué, fumando o mais voluptuosamente que podia o seu cigarro, em companhia do Christo, que o contemplava da sua cruz branca de marfim.
Um carro funebre parou á porta, um ruido surdo, de molas pesadas e lentas; e logo os mercenarios subiram, um tropel tumultuoso, phrases grosseiras em dialecto gallego.
Mas a Ermelinda ouviu-os; protestou, debateu-se nos braços d'Alberto.—
—que o não levassem, queria despedir-se d'elle, era a ultima vez que o via—e arremessada pela impetuosidade da sua dôr, entrou na camara ardente; os homens tiravam o chapéo que servira apenas ceremoniosamente e ella pôde ver ainda o cadaver, na sua lividez mate, um fio vermelho ao canto do labio, o nariz afilado.
—Meu pae—e cahiu n'um deliquio, as senhoras vieram, affastaram-a presurosas, com um grande carinho affectado.—
A Joaquina veio tambem; quiz vel-o sahir, era a ultima vez...
—e desatou a chorar, n'um largo pranto carpido, a voz rouqueando-lhe em gritos abafados, uma vontade de se atirar animalmente áquelle caixão, cingir nos braços o cadaver que lhe fugia e aquecel-o com os beijos da sua febre, reanimal-o para as efflorescencias da vida.{182}