—Pois olha que não é outra cousa, e hei-de-o saber com certesa; tu verás como sae certo, isso são favas contadas...

Entornava-lhe na alma o veneno do ciume, com um grande desamor cruel, fazendo alarde da sua experiencia em casos d'aquella ordem.

—Não era o primeiro, e depois olha quem!... se não se recordava d'aquella historia com a mulher do commendador Bernardo...; mas havia de o saber—protestava com empenho—e conversariam depois, viria agora visital-a mais a miudo, até lhe levava a mal que a não tivesse chamado ha mais tempo, as amigas conheciam-se nas occasiões.—

Ermelinda ficou como um doente a quem se acalma a dor com a ministração d'um veneno... aquellas palavras da sua amiga corriam-lhe na alma ao arrepio, como uma bafagem quente de verão, que respiramos mas que reconhecemos nociva; parecia-lhe que uma sensação extranha germinava dentro de si, crescendo com um grande{190} vigor luxuriante, assombreando com as suas folhas envenenadas o pouco sol que ainda sorria e lhe cantava.

Tudo lhe perdoaria menos isso—

A sua vaidade de mulher formosa crispava-se em revoltas instinctivas, e a lembrança de que uma outra possuia aquelle homem, que ella rodeara dos perfumes calcinantes da sua paixão, batia-lhe a alma como uma onda tempestuosa de ciume, pungia-lhe o orgulho em humilhações amarguradas.—

—Era talvez até a essa infame que ella devia o seu infortunio,—agora estava explicado tudo.—

As palavras da D. Clementina tinham sido uma revelação,—fizera-se a luz diante d'aquelle desvendar d'illusões—

—oh não havia que duvidar—

E relacionava todos os seus dissabores, todas as irascibilidades, todas as suas questões com Alberto n'aquelle principio de causalidade, attribuindo-lhe a origem dos seus males, do seu viver infortunado e amargo.