—Oh, filha! desabafa, tu bem sabes que isto aqui é um poço—e apontava para o coração—as amigas não se fizeram para outro fim! Não sei se te lembras da Vicenciasinha, que morreu envenenada, pois olha que tudo me contou e eu... bôa... calada como um pêto... isso assim é de te matar lentamente; desafoga, menina, não ha mal que não tenha remedio.—

Insinuava-se, offerecia a sua alma como um consolo anodino e bom, um balsamo que se entorna sobre feridas irritadas.—

—Não, não a deixaria sem que ella se tivesse aberto para com ella, fôra sempre muito sua amiga, desejava dar-lhe uma prova verdadeira d'isso.—

Ermelinda foi desfiando lentamente os espinhos do seu martyrio obscuro; sentia-se alliviada, uma oppressão que lhe deixava desafogado o peito, mais forte com as consolações affectuosas d'um carinho, que desde muito ninguem tinha para com ella.—

—Narrou as groserias do Alberto, a despedida da Joaquina, uma criada de dezoito annos, que a trouxera ao collo tanta vez, o inferno do seu viver atormentado, as altas horas da noite a que elle recolhia, a sua indifferença por ella e até pela{189} pequena, as revelações em que se patenteava a vilesa d'aquelle caracter;—

A D. Clementina benzia-se, interrogava minuciosamente, indagava com muita curiosidade.

—Oh, filha, eras digna de melhor sorte.

—então, que lhe havia de fazer... mas que dizia ella a tudo aquillo?

—Eu sei cá, menina, vai tendo resignação, vai tendo paciencia; os homens ás vezes teem d'estes rompantes, mas passa, passa, quem sabe até se andará por ahi mal encaminhado.—

—Oh, D. Clementina nem me diga...