Emmagrecia, a sua formosura esvaecendo-se, como uma estrella que descora, o tom quente das faces substituido por um macillento doentio, de pobresa chlorotica de sangue, os bons alimentos que faltavam.
Perdia a energia para o trabalho e quedava-se ás vezes em longas contemplações scismaticas, um confronto do seu presente com o seu passado, a vida amargurada d'agora, com a vida facil e descuidosa d'então, maldisendo o seu destino, sem resignações corajosas para aquelle infortunio, que tinha de devorar ella só.
E apesar de que a imagem da filha vinha occupar, como um clarão amigo, quasi todo aquelle negror da sua alma, sentia que lá ficava ainda uma sombra, um vacuo que o amor de mãe não podia preencher, alguma cousa de desconsolador,{225} que deixava no seu coração um arrepio gelado, como a corrente d'uma noute fria que penetra n'uma sala quente, atravez d'um vidro partido. Uma aspiração se elevava d'uma precisão mal definida, fluctuante e incorporea, como que devendo encher aquelle vasio—
—Lembrava-se de que talvez a miseria lhe custaria menos se tivesse um companheiro que a comprehendesse e a alentasse, que tivesse para ella um sorriso amigo e carinhoso, que lhe incutisse força n'aquelle peregrinar atravez d'espinhos;—
—Via tantos pobres felizes!... justamente o seu bairro mostrava-lhe frequentemente d'estes exemplos; morava em frente de si um operario honesto, um ensamblador, que tinha pela mulher uma adoração fanatica; havia dous filhos, uma santa paz, o trabalho alegre como uma benção, e ás tardes, quando elle largava o serviço, via os dous no quintal, á sombra fresca d'uma ramada, bebendo tranquillamente pela mesma caneca de vinho, os pequenos a faserem hortinhas, uma bonhomia suave, que fasia lembrar um quadro hollandez, e depois o operario estender-se preguiçosamente sobre um banco de pinho, a cabeça no regaço da mulher, que o catava muito de manso, baixando-se a espaços para o beijar carinhosamente na testa.—
Não tirava os olhos d'elles e a agulha cahia-lhe da mão, a imaginação a pintar-lhe um quadro identico, em que ella tambem se baixaria para beijar a fronte pallida do seu marido, a Rosina{226} traquinando com as suas bonecas a um canto do jardim.
—Como fôra infeliz!... e era preciso tão pouco para se ter a felicidade—suspirava.—
Quasi tinha inveja áquella mulher honrada e áquelle operario honesto; affigurava-se-lhe uma injustiça aquelle contraste de paz em frente da sua vida de amarguras, e ás vezes, ao vêr que os dous sahiam do quintal, braços enlaçados, rindo muito, alegres do seu amor, uma bafagem quente lhe subia no peito, um desejo incoherente de se sentir beijada nos labios varonis, a reminiscencia avivando lembranças felizes d'outros tempos, a energia do seu temperamento despertando indomita, n'um esfusiar esteril e impotente.
Vinha-lhe porém adjunta a recordação do Alberto, e uma onda tumultuosa de odios represados a dilatava toda.—
—Nunca mais, odiava-o de morte; um pulha, um miseravel, um indigno que não quizera comprehendel-a, e que lhe tinha roubado para sempre a felicidade!—