—Como teria sido feliz, se o houvera desposado—pensava—que desgraça a sua, em ter conhecido o outro!—

—e elle afinal, a que podia aspirar coitado?!... que falsa posição a sua—como se lhe affigurava uma indignidade revoltante aquelle voto que a sociedade lhe houvera imposto com o processo de separação!—

—porque não havia ella de ser livre, poder amal-o, poder dedicar-lhe o seu coração tão cheio de boa gratidão, principiar com elle uma vida {230} nova, toda cheia de paz e de carinho, formando uma familia honesta e honrada!—

—que era ella afinal? nem solteira, nem casada, nem viuva! que lei infame!... e não havia justiça na terra!—

Um circulo de ferro a envolvia de todos os lados, estreitando, diminuindo de raio, esmagando-a dentro d'aquellas interrogativas sem resposta.

E ao commendador, por seu lado, uma nostalgia da vida, tenue como um nevoeiro, o ia invadindo;

—aquella mulher era o seu desejo, a sua felicidade, o seu bem! mas não abusaria, seria uma infamia! e entretanto a lei quasi o incitava, em face d'aquelle despotismo cruel, que tinha tyrannicamente roubado a liberdade áquella mulher... e porquê, não lhe diriam?... porque ella se tinha revoltado contra um bebado, um jogador, um patife que a espancava,—era um absurdo, realmente.—

—e entretanto, conhecia-o, não bastavam á sua natureza forte, aquelles idealismos cavalheirescos de Magriço, que o faziam sacrificar por ella; um grande tedio o aborrecia, aquella pura devoção não satisfazia a anciedade exigente do seu espirito.—

—E talvez que ella o não repudiasse, presentia-o, o seu olhar fazia-lhe agora mais mal do que nunca, quando o surprehendia a pousar sobre si n'uma quietação contemplativa e muda—

—era preciso affastar-se, vel-a menos vezes,{231} fazer-lhe todo o bem que pudesse, mas fugir, fugir a final de contas.—