—Mas estava elle agora alli, não havia de ser assim—protestava—
—a Joaquina tinha-se sacrificado muito por ella, a unica pessoa que a não abandonara—dizia depois Ermelinda ao commendador.—
—boa criada, não as ha hoje assim! conserve-a, conserve-a sempre.
—sempre, só se ella quizesse deixal-a; era quasi sua mãe.—
O commendador resolveu desde logo modificar-lhe as condições do seu viver.
—mas que diria o mundo? não, não acceitava, em tudo se lançava veneno—
—mas não podia consentir, o seu amigo tinha-lhe recommendado a filha na hora da morte,{229} e depois, elle não tinha familia, dotaria a Rosina, já ella não tinha de que ter escrupulos.—
E principiou a enviar copiosos presentes, mobilia e comestiveis, um rodeio de confortos, sollicito em adivinhar-lhe os pensamentos, conta aberta na modista, uma submissão de escravo em todas as suas acções, alegrando-se de ver como Ermelinda se refasia, um pouco mais rosada já, engordando até, a nutrição sadia agradecendo os bons alimentos delicados, como a flor estiolada agradece o raio do sol que lhe faltava.
—E não tinha que agradecer-lhe, pelo contrario, elle é que se considerava feliz em poder-lhe fazer algum bem; cumpria religiosamente um dever, andava contente, não precisava de mais.—
Ermelinda porém enchia-se por elle d'uma suave gratidão; o sangue novo que a revigorava, entumescia-a de incongruentes desejos; adivinhava a alma do commendador e sentia-se feliz em ser assim amada, submissamente, como uma rainha, com a adoração respeitosa e fervente d'um fanatico.