—Oh, obrigada, obrigada—e tomou-lhe a mão com eternecimento, um tremor nervoso agitando-a, perdendo pouco a pouco a energia da vontade, um entorpecimento lasso quebrantando-a.

—Como seriamos felizes—balbuciou o commendador—e vendo que Ermelinda se calava, uma esfusiada de palavras lhe sahia dos labios, as imagens colorindo-se n'um fogo calcinante de paixão, que se libertava, a allucinação dos sentidos torturando-se no leito procusteano do prazer e do soffrimento, a torrente espraiando-se n'um desafogo perdoado, supplicas urgentes, que a commoviam, a imaginação atordoada diante da formosura d'aquella mulher, que fôra o seu sonho, apertando-lhe as mãos, beijando-as com soffreguidão estonteadora. Ermelinda levantou-se.

—Oh, não, não, é impossivel!

Uma risada christallina de creança explosiu á porta da rua. Era Rosina que voltava do collegio.

—Está zangada commigo?—perguntou o commendador entre confuso e meigo.{236}

Calou-se um pouco.

—Olhe, somos dous infelizes—disse apertando-lhe a mão,—que devo eu agora á dignidade d'um ébrio, que a policia levanta por caridade?... Se podessemos casar!...

—Mas é impossivel, bem vê, a lei tem d'estes absurdos, d'estas tyrannias inqualificaveis. É uma fatalidade!

—Sim, é uma fatalidade—e pousando-lhe rapidamente um beijo na testa, Ermelinda sahiu, deixando o commendador estonteado, um atordoamento que deslumbra, a alma larga não cabendo na estreiteza da palavra, que se paralysa.