—Ah, que ella o não amava! do contrario não fallaria assim!—dizia todo offendido, n'uma voz rapida, d'um tremulo nervoso.
—Se o não amava! nem dissesse tal! era uma blasphemia, daria por elle a sua felicidade, a sua vida.
E quasi se sentia arrependida de lhe ter chamado voluvel; uma grande tristesa subia ao seu espirito, fazendo-lhe experimentar alguma coisa de commovente, que lhe marejava d'agua os olhos limpidos e bellos. N'aquelle instante desejaria cortar por todas as conveniencias, saltar d'aquella janella, aproximar dos seus labios a fronte pallida do seu amante e dizer-lhe n'um impeto d'amor:
—Amo-te, Alberto, amo-te muito.
Depois ajoelhar-se n'uma supplica muda, para que elle a levantasse, doido d'amor, muito carinhoso e meigo, como já tinha visto fazer no theatro ao actor Santos, quando se representava o Antony.
Mas quando ella se arroubava n'estes pensamentos languidos, enternecida e melancolica, um vulto apparecia ao fundo da rua, fazendo estalar uns passinhos miudos, rapidos, de quem tem pressa de chegar.{32}
—O pae, o pae, adeus!—despedia-se atrapalhadamente, fechando a janella com o menor barulho possivel.
—Que raio!—regougava o Alberto n'um plebeismo grosseiro de indignação irada, como se desejasse fulminar com a vehemencia da sua apostrophe o cidadão honesto, que recolhia tranquillamente do seu whist, do Club. E desalojando-se da posição, seguia rapido na direcção opposta, embuçando-se mais, com as mãos nos bolsos, repuchando o casaco sobre os rins, com arrepios de frio. Voltava-se obliquamente para ver entrar o Jorge e depois retrocedia, lentamente, devagar, como um vadio incorrigivel.
Olhava; vultos perpassavam no fundo luminoso da vidraça descida.
—Devem ir tomar o chá—pensava—emquanto elle, exposto ao relento da noite, á neblina, á intemperie, tinha de atravessar quasi meia cidade, um estirão, para se metter n'uma pocilga nojenta, miseravel, que o revoltava.