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[A DIVORCIADA]

[I]

Festejavam-se á noite em casa do brasileiro Mendes os dezenove annos da menina Adelaide.

Toda ella se affogueava nos contentamentos intimos de rainha da festa, as faces carminando-se das exhuberancias humidas e quentes d'uma mocidade recatada e honesta, muito vaidosa do seu vestido novo, praguejando em frente do espelho, como um collegial estroina, contra aquella moda de penteado, que lhe não deixava pôr em relevo as longas tranças castanhas, tão espessas, que a natureza lhe doara.

Tinham-se convidado apenas as filhas do Gomes, as Bastinhos, a Ermelinda Silva, filha do Jorge director d'um banco, e umas poucas mais, ex-companheiras de collegio, muito intimas, com quem se não fazia ceremonia.

Rapazes viriam tambem.

O Juca, sobrinho do Mendes, tinha-se encarregado{8} de apresentar alguns amigos, e o brazileiro, muito popular nos estabelecimentos da Praça de D. Pedro, convidara alguns caixeiros—para irem beber um calice do fino, fazer uma saude á pequena.—

Era cedo ainda.

A grande meza de jantar, como um cetaceo brunido, estendia toda a elasticidade das suas articulações para sustentar no dorso viandas appeteciveis, carnes frias, podins gelados, os largos taboleiros de doce, as garrafas de crystal com opalinos vinhos do Porto e da Madeira. Ao centro um jarrão de porcellana, cheio de camelias encarnadas e brancas, dominava todo aquelle acampamento de coisas appetitosas, orgulhoso de si, como o general Boum no meio das amazonas da Grã-Duqueza.