Tinha adormecido. Nas linhas do seu rosto divisava-se ora um sorriso alegre, de satisfação saciada, ora uma contracção spasmodica, revelando{40} amarguras, desesperos intimos, que a commoviam. Sonhava com Alberto.
—«Via-se noiva, de vestido de faille branco, muito chic, feito nas Ferin, tendo ao peito um ramo de flôr de laranjeira e na cabeça um penteado elegante, coroado por uma grinalda identica, onde prendia um véo de tulle, amplo, magestoso, que a velava pudicamente; nunca lhe parecera tão pequenino o seu pé, como calçado n'aquelle sapato branco, de setim, dando um realce artistico á sua perna gentilmente vestida em meia de seda.
—Ah! como o Alberto gostaria d'ella assim!—sorria vaidosa—
—E a elle, via-o tambem, muito frisado, de gravata branca, a camisa com abotoadura de brilhantes, de casaca, muito attencioso, muito reverente, cheio de elegancia, invejado por todas, por ellas, pelas suas amigas, que a felicitavam com sorrisinhos traiçoeiros, compromettedores, que faziam córar.
E de sobre a elegancia da sua toilette de noiva, ella, para se vingar, deixava cahir sorrisos, animadores, de consolação, para a Adelaide Mendes, para as Gomes, para a filha do Bastos, e outras que ainda estavam solteiras.
Via o aspecto dos trens, enfileirados, ao sahir da egreja, e a sua carruagem de noiva, com os cavallos brancos, e cocheiros de fardas vistosas. O commendador Faria, muito cheio de brilhantes, pesado, enchendo elle só um trem, seria o padrinho.
Ao sahir, quando já vinha pelo braço d'Alberto,{41} as mulheres do povo, cobrindo-a de santas aspirações, de bençãos:
—que Deus a fizesse feliz, que fosse em boa hora—
—Apesar de que não promettia muito a cara do noivo—observara uma aldeleira ambulante, de grosso ventre levantado, e roupas velhas penduradas no braço de côres arreliosas.
Que vontade teve de a esganar, o diacho da velha... dizer que o seu Alberto, tão lindo, tão sympathico, não tinha boa cara: forte bruta!—