Mas esqueceu-a breve; o cortejo dos convidados, um sequito apparatoso que a rodeava como a um astro, fazia-lhe vaidade, tornava-a feliz, parecia-lhe que a dilatava de superioridade.
Depois os convidados, n'uma civilidade ironica, iam-se despedindo. As senhoras abraçavam-a, segredando-lhe ao ouvido e pondo beijos miudinhos nas suas faces aquecidas. A final ficaram sós, ella e o seu amado, o seu marido! Havia uma lampada de crystal no quarto e os cortinados, como as vélas d'uma gondola, agitavam-se trementes, como se o leito fôra na realidade um barcosinho, onde ambos tivessem de navegar para um paiz distante, desconhecido, estranhamente novo. Elle tomara-a um pouco arrebatadamente, sentando-a nos joelhos, affagando-a com beijos e sorrindo, ao tirar-lhe o véo de noiva, que a fazia reflectir no espelho do toucador, toda branca, d'uma brancura eburnea, de camelia nevada.
E no seu rosto adormecido divisava-se um limpido sorrir, de doce voluptuosidade, como se a{42} alma lhe irradiara nas sensações tépidas d'aquelle sonhar delicioso. Mas logo após esta serenidade tranquilla e suave, em que talvez a sua imaginação voasse para esse periodo ditoso e perfumado da lua de mel, em que teria sempre junto de si o seu maridinho, muito carinhoso e muito meigo, o periodo dos jantarzinhos frugaes e delicados, com flores na meza e alegrias no espirito, as linhas da physionomia contrahiram-se-lhe n'uma crispação dolorosa, e o sonho revestia uma feição diversa, em que a amargura vinha como uma flor envenenada, empeçonhar os dias de ventura;
—era ainda aquelle o Alberto que ella amava, mas desleixado, vadio, ébrio; tinha grosserias insupportaveis, ferocidades de despota—
—e via-se triste, chorando muito, sem um consolo, sem um carinho que a alentasse...—era horroroso—estava diante de si uma galeria subterranea, escura, um abysmo de sombras...
—não, não queria caminhar, tinha medo...—mas elle, rindo, dera-lhe um impulso brutal, fizera-a entrar; um caminho escabroso, cheio de asperesas, silvados rodeando-a por todos os lados... cada passo custava-lhe muitas lagrimas... e o Alberto ria, ria, estupidamente, como um idiota embriagado... Um anjo se approximou d'ella; tinha o perfil do commendador Faria, com os seus oculos d'ouro, e as mãos a despedirem luz como as dos illuminados celestes; mas a luz sahia-lhe da base dos dedos, do logar dos anneis; e tomou-a nos braços, sentia-se voar, muito cheia de doce gratidão, quasi esquecida, quando uma creança se lhe prendeu aos vestidos, parecendo reprehendel-a{43} d'aquelle vôo egoista, olhando-a com a limpidez casta d'uns grandes olhos pretos;... mas o anjo—commendador dominava-a, arrastando-a sempre, perguntando-lhe n'um adociado brazileiro:
—se a sinhasinha não voava,—que morreria se parasse, lá estava o snr. Alberto a rir-se d'ella—
e—sim, lá estava!—olhou para traz, uma enorme cadeia a prendia a elle, e uns policias passavam então, empurrando-a, batendo-lhe brutalmente.
—Queria fugir, fugir: era horroroso!»
Despertou então. Um suor frio lhe humedecia a testa; a cabeça doia-lhe um pouco, sentia-se fatigada. A luz da lampada esbatia-se moribunda nos primeiros alvores da manhã que vinham entrando pelas fendas da janella; ouviu o gallo cantar no quintal e logo depois uma voz arrastada, n'uma melopeia monotona, bradando do fundo da escala: