—Leiteira!—

A Joaquina desceu; ouvia-se um murmurio indistincto de vozes feminis, e em seguida o estrondear da porta que se fechava.

N'aquelle dia andou toda alvoroçada, nervosa, muito inquieta. Olhava muitas vezes o relogio, uma pesada machina de nogueira, a que o Jorge todos os sabbados dava corda, com a phrase rythmica:

—Tens de comer para oito dias.—

Parecia-lhe que os seus largos ponteiros de metal se moviam com uma lentidão desesperadora.{44} Teve vontade de o adiantar—mas era uma tolice—pensou.

Sentou-se a trabalhar para ver se distrahia. Descobriu no bastidor um bordado delicado, a matiz, um ramo de rosas, sobre que vinha poisar uma borboleta. A mão porém não lhe assentava, as sedas sahiam frequentemente da agulha, o desenho errava.

—Ora! não estava para aquillo.—

Levantou-se, principiou a ler; era «Agulha em palheiro» de Camillo Castello Branco; interessava-se muito por aquelle sympathico filho do sapateiro, o heroe do romance, e sentiu deslisar umas lagrimas furtivas ao ver a formosa Paulina, uma doce creação do romancista, tão soffredora e tão amante.

Tocaram a campainha.

—Quem seria?—disse pousando rapidamente o livro e pondo-se diante do espelho, para anediar o penteado.