E voltando-se para Ermelinda:
—Toca alguma coisa, menina; não sei para que te serve a habilidade!...
—Já vou, papá...
E sentou-se ao piano, o Alberto ao lado, voltando-lhe a musica. Era um motivo da Traviata, d'um sentimentalismo enervante, que punha no espirito uma doce melancholia; tocou depois um trecho da Dinorah, a «walsa da sombra»; parecia que as notas vibrantes do piano recordavam aquelle gemido hilariante da pobre louca, que se desenhava em todo o seu perfil na lucillação casta do luar.
Havia commoções ternas n'aquella musica, toda repassada d'um perfume apaixonado, sentimentalista; a alma deixava-se voejar na photosphera quente d'uns amores loucos, muito ideiais, com idylios banhados de luar, e phrases d'uma levesa etherea, d'uma brancura ingenua de estrellas; amortecia o vigor dos fortes, como uma gaze feerica envolvendo um bronze; e Alberto, contemplativo e scismador, de pé, absorvendo na languidez quebrada do seu olhar, a escultura formosa de Ermelinda, experimentava um desejo{69} incoherente de se apossar de toda aquella mocidade, arrebatando-a, como um cavalheiro medieval, no corcel vertiginoso da sua phantasia.
Mas o Jorge irritado:
—Oh, D. Gabriella, pois isso faz-se, ir metter a sua bisca debaixo do az.—
—Mas, sr. Jorge...
—Qual mas, nem qual carapuça; a senhora está hoje d'uma abstracção imperdoavel...
Ermelinda cessara de tocar, sorrindo para Alberto d'aquellas questiunculas futeis; os seus olhos negros levantando-se tinham uma meiga expressão indefinida, como se a musica, que estivera tocando, os houvera mergulhado n'um fluido suavemente humido e voluptuoso. Voltaram a sentar-se junto da jardinière, um pouco recolhidos na sombra, apertando-se occultamente as mãos, com uma doce pressão dolorida, que os fazia estremecer de gozo.