—Se tomavam mais chá—perguntava Ermelinda.
—nada, nada—dizia a D. Clementina—agora cada mocho a seu souto; vão sendo horinhas...{71}
O commendador puchava pelo seu chronometro de setenta libras
—onze horas, minha senhora...
—credo, muito nos demoramos hoje.
E cobriam os agasalhos, n'um conforto macio, dizendo-se adeus. A D. Clementina e o commendador eram os primeiros a sahir, depois o Alberto despedia-se ceremonioso para com o Jorge, volvendo o olhar d'uma tristeza saudosa para Ermelinda, que promettia, por leves signaes trocados, fallar da janella na noite seguinte, emquanto o pae estivesse no Club. A D. Gabriella era a ultima, e dava sempre um beijo na Ermelinda, chamando-lhe—a sua filha—e um shake-hands ao pae, d'uma expressão significativa, forte como uma velha esperança. Depois a Ermelinda dava as—boas noutes ao papá—que ficava ainda a lêr o «Commercio» n'uma tranquilidade pacata, de chinellas bordadas a tapete.
Mas não eram essas as noites em que mais se expandia, em candido voejar, a imaginação ardente dos namorados. A companhia era sempre um obstaculo, um non plus ultra á sua phantasia sonhadora, á idealidade rutilante das suas imagens de prazer.
—Que aborrecimento ter de aturar a velha historia do Totó, contada pela D. Clementina, e a phonetica de sabiá do commendador e os vv, silvados da D. Gabriella.—
—Ah, como era bom estarem elles sós os tres em volta da jardinière, o Jorge lendo o Commercio, interrompendo-se apenas para narrar um caso—que podia ser fatal—e o Alberto folheando{72} os albuns, sentindo descer sobre si a respiração suave de Ermelinda, occulta na meia sombra do abat-jour, trabalhando silenciosamente no seu bordado.
—ou então, quando Ermelinda se sentava ao piano, tocando uma musica triste, entornando umas melodias melancholicas por sobre a sua alma de crevè, dando-lhe umas sensações deliciosas que o amorneciam—