—mas, lá, o tal senhor, não lhe engraçava com os bigodes... ainda se fôra o commendador... aquillo sim, que era um regalo de homem e pezava, bem se via nos brilhantes que elle trazia na camisa... mas estas meninas de hoje só querem bonifrates... e elle então que andava babadinho por ella, isso conhecia-o ella... oh, se conhecia...—
E a Joaquina, evocando umas cantigas do seu Minho, cantarolava, continuando a pôr nas saias uma brancura luzente de stearina.
Tinha então os seus trinta e cinco annos talvez; viera para casa do Jorge com doze annos{76} apenas para ser a criada da menina e fôra crescendo, tornando-se prestavel, amorosa para com todos, muito serviçal; tinha sobre tudo uma amizade animal por Ermelinda, a sua menina, que tantas vezes trouxera ao collo, com quem tantas vezes brincara... A familia do Jorge era a sua familia, e principalmente, depois que a senhora morrera, a Joaquina tomara um certo predominio na casa, o predominio da utilidade, do prestimo positivo, da sciencia pratica das cousas. E foram-lhe assim passando, n'aquelle deslisar monotonamente suave, os dias formosos da sua mocidade; chegara a ter um namoro, dous até, o primeiro com um rapaz marceneiro, que morrera no hospital, o segundo com um policia, que representava o papel de Falstaff, no céo da sua innocencia de bicho de cosinha... Mas tudo isso acabara, esvaecera-se lentamente, como um arroyo de verão que sécca, deixando umas areias fulvas na sua passagem; e a Joaquina um poucochinho gorda, aceiada, d'um loiro branco dos temperamentos lymphaticos, espapava-se agora n'aquella tranquilidade da familia, contente com a sua sorte, sem as revoltas instinctivas do servo. A molleza apathica do seu temperamento adormentara-lhe as imposições estimulantes da carne; e laboriosa como uma formiga, entregue sempre á tarefa assidua do trabalho, esquecia-se que resvalava pouco a pouco n'esse plano inclinado da vida da mulher, em que as brancas matizam a cabeça e as rugas se aninham na face, desfeiando-a, com as garatujas d'uma tatuagem a carvão. Mas aos Domingos, nos dias de ocio,{77} em que o corpo se sentia resfolegado das canceiras do trabalho, e o jantar era um poucochinho mais copioso, com uns estimulos de acepipes apimentados, a Joaquina experimentava umas mordicações acirrantes do instincto e deitava-se na cama, extasiando-se na brancura polposa dos seus seios e suspirando, n'uma recordação entre odiosa e doce pelo seu segundo namoro, o bravo agente da ordem, o policia 45.
Mas aquillo passava, como uma ligeira effervescencia e o trabalho adormentava de novo o tumulto provocado d'aquella natureza apathica, que continuava tranquillamente na curva suave da sua existencia.
[VII]
Na rua de Welesley, a tia Magdalena acabava de frigir a terceira certã de iscas de bacalhau, uma massa d'um amarello canario, com fragmentos retalhados de ovo batido,—que ninguem sabia preparar com tanta limpeza e com tanto paladar—dizia ella. O seu corpo baleiforme, d'uma gordura toucinhosa, curvando-se para pôr o avental, enodoado de manchas lusidias, levantou-se de subito, quando a Annita lhe entrou na cosinha, um aspecto pallido, enfermiço, d'umas rosetas carmezim ao meio da face, e uma tossesinha secca, muito frequente.
—Dá licença, tia Magdalena.
—entra rapariga, já não ha quem te veja.
A Annita ia a responder, mas a tosse interrompeu-a, um accesso brusco, que ella procurava{78} abafar, collocando um lenço sobre a bocca.
—Trata-me d'essa tosse, pequena, isso é fraqueira, queres tu tomar um caldinho!