Os olhos d'Annita, uns vagos olhos negros, d'uma doçura quebrada, moveram-se como que a acceder áquelle offerecimento e depois baixaram-se, mudamente, deixando rolar umas lagrimas furtivas.
A tia Magdalena reparou:
—Tu por que choras, rapariga!
—Se soubesse!...—e Annita, deixando rolar as lagrimas, n'um soluçar comprimido, os olhos a avermelharem-se, prorompeu rapidamente, como uma confissão que se deseja fazer depressa:
—Ha uns doze dias que o Alberto não apparece; e sabe... a pequenita, está tão mal, seccou-me o leite, coitadinha, não faz senão chorar, aquillo é fome, percebe!...—
—Ora o grande maroto; eu bem te dizia que aquillo nunca te havia de dar bom pago! Uns tratantes todos, uma corja, é o que é!...—E a tia Magdalena, n'uma indignação honesta, brandindo a gordurosa faca de voltar as iscas, com a respiração ruidosa, vermelha do calor do lume, como uma clamyde vingadora, ameaçava os devassos da boa sociedade,
—uns pelintras, uns paninhos d'armar, e que não deitavam uma de x, se os virassem de cangalhas, que era o que elles mereciam... uma forca—concluiu toda offegante, limpando a certã ao avental e collocando-a sobre as trempes para proceder a uma nova fornada d'iscas.
—E agora sabes que mais, Annita, leve o diabo{79} paixões e trata de te aproveitares em quanto é tempo.—
—E a pequenita, que lhe havia de fazer, não lhe diria? e depois, sem saber cousa nenhuma d'elle...
—D'elle, ora não está má essa! que esperas tu d'ali? A estas horas lembra-se bem de ti! sempre ainda és de bom tempo!...—