E mais confortada, com uma resignação de vida nova, pensando um pouco na miragem que lhe fulgia diante dos olhos, a Annita, saciada a fome, na plenitude feliz d'um estomago satisfeito, arremeçava a phantasia ao encontro d'um brazileiro endinheirado, d'um negociante, d'um burguez honesto que a sustentasse, n'um trem de luxo, casa montada, uns vestidos espalhafatões e uns brilhantes,—oh, desejava muito uns brilhantes,—e{81} sahiria com a sua creadinha, muito invejada, golosamente desejada pelos dandys que estacionavam ás portas dos cafés, das tabacarias, nas aleas do Palacio—

—mas nunca, havia de se vingar, estava farta de peraltas.—

E um pouco mais positiva, com a licção pratica do infortunio em que ia resvalando, pensava em aproveitar-se um pouco da flor da sua mocidade, e depois,—a filhinha era preciso aconchegal-a n'um agasalho de confortos—d'um collegio, onde a pequena estivesse decentemente collocada, e que a não importunasse muito a final—concluia.—

Vinham-lhe todos estes pensamentos n'uma confusão adoravel, com uma effervescencia de cerebro docemente embriagado, sonhando-os ella só, com uma doce voluptuosidade intima, em quanto a tia Magdalena curvada sobre o lume espalmava com a faca as iscas amarellas que chiavam n'uma compressão rugidora e com a outra mão esfregava os olhos blepharaticos, lacrimejantes com o calor do lume. Lembrou-se da pequerrucha, despediu-se

—havia de voltar, tinham muito em que conversar

—cá te espero, minha brazileira, e olha, vem á tardinha, tenho mais uma aquella de vagar.—

A Annita sahiu da tasca. Ficava em frente a alameda das Fontainhas, com as suas sombras frescas, a relva cylindrada, um doce murmurio d'aguas que cahiam no tanque. A tarde descia lentamente com uma grande preguiça de creoula,{82} arrastando a sua cauda de luz por sobre a cumiada dos altos de Villa Nova, dando um tom melancholico de ruina ao velho convento da Serra do Pilar. O Douro lá em baixo, n'uma mansidão lassida, quasi parado, deixava-se cortar em espadanas de crystal pelos remos curvos dos barcos rabellos, um tanto primitivos, que iam navegando lentamente.

Mirones melancholicos, com um ar romantico, se encostavam ao paredão contemplando a paisagem n'uma grande mudez admirativa e ociosa, em quanto em baixo as lavadeiras batendo a roupa, cantavam alegremente, amenisando o trabalho.

A Annita sentia-se possuida d'aquella beatitude pantheista; o seu espirito resfolegava alegrias, o corpo sentia-se leve, como que impregnado d'um ether ligeiro, que a estonteasse de felicidade, fazendo-a voar na mansidão do azul, como as aves brancas que atravessam o espaço. Toda ella delineava bellos sonhos aereos, phantasias gentis, castellos d'Hespanha rendilhados de luz, que nada parecia poder destruir.

—Seria rica e feliz! A sua filhinha teria sempre vestidos brancos, a cinta enlaçada por uma larga fita côr de rosa, e um chapeu pequenino de palha d'arroz, feito na melhor modista. E sahiriam juntas, ella toda cingida n'um vestido de velludo côr granada, a côr da moda, o sapatinho aberto a desvelar as meias de seda, um chapeu modelo, toda perfumada, com o bello aroma d'essencias caras—havia de ser do Jockey-Club, que o Alberto tanto gostava—{83}