—mas ao recordar este nome uma sombra escura perpassava ennevoando aquelle sorrir intimo, como uma nuvem que empana o sol, ou um signal negro que poisa no branco setim d'uma pelle avelludada.

—Ora, que lhe importava! Era um canalha, estava dito.—E evolando-se outra vez ao ceu das suas phantasias, pensava então em como havia de ter a sua casa, um primeiro andar com mobilia de pau setim, tapetado de modo que ella não sentisse o ruido dos seus passos, e uma ottomana toda macia, com boas molas doces, onde podesse recostar-se languidamente a pensar em coisa nenhuma. Ficára-lhe a voluptuosidade preguiçosa dos divans, do seu tempo de cocotte;—e teria um piano, sim, era decente, ella não sabia tocar, mas a pequerrucha aprenderia!—além d'isso ella gostava de musica, sensibilisava-a, dava-lhe um poucochinho a doce voluptuosidade dos enervamentos molles e—lembrava-se sobretudo dos fadinhos chorados na guitarra, que tanto a enterneciam.—

Mas dous brazileiros vinham do outro lado da alameda; um d'elles, usando oculos, pareceu olhal-a com attenção; questionavam em grandes gestos largos. A Annita pensou em que elles seriam muito ricos.

—Si lh'o digo eu, homem! se casa ella! esta manhã o Juca contou na loja do Guimarães, que tinham já assignado as escripturas.—

—Mas se elle não tem aonde cahir morto! olha quem, o Alberto!

—Herdou d'uma tia da provincia, você sabe?{84}

—Historias, aquelle passaro não entra em gaiola minha, não, essa lhe digo eu! Conheço de ha muito o Alberto de Sá!

A Annita sentiu-se intrigada, alguma cousa de occulto que se revelava, estonteando-a.

—Ah, pois era possivel! Aquelle canalha ia casar-se! E ella, e a filha!... que pulha, que miseravel!—

E desejava ouvir, interrogar os brazileiros; saber se era d'elle, que realmente se tratava. Approximou-se, tinha uma grande agudeza d'ouvido, precisava não perder um som. O brazileiro dos oculos não deixava de a fitar de vez em quando.—Se podesse fallar-lhe.—