—Deve confessar que uma lua de mel passada dentro de casa é a maior sensaboria, que os nossos bons burguezes podiam inventar; falta o amor, o idylio, a ventura, a felicidade dos primeiros dias de noivado! Eu cá por mim protesto contra esse erro de chronologia, de lesa-elegancia, de lesa-poesia.—

—Que de lesões ahi não vão, santo Deus,—ora oiça-me, Luiz Serra.—Tudo o que o Sr. pensa a proposito d'esse primeiro periodo de noivado, não passa d'um bolo coberto de assucar lyrico, deixe-me exprimir assim. Que vantagem póde ter essa iniciação mentirosa na felicidade do casal, não me dirá? E depois attenda; a lua de mel é um cyclo que devia deixar de existir no casamento; o bom senso e a boa educação protestam contra ella! Ou a lua de mel deve exprimir a synthese da felicidade e essa deve durar sempre, não póde limitar-se a uns bons dias apenas,{98} ou ella exprime sómente uma convenção idylica entre os noivos e é isto o germen de futuras questões, de dissidencias graves, que terminam muitas vezes no adulterio, no divorcio.—Que faz o Alberto em ir com a Ermelinda pipillar idylios nas carvalheiras do Bom-Jesus?

—Mas amam-se, asseguram a sua felicidade.

—É exactamente o contrario do que o meu amigo pensa; por que não iriam antes sensatamente para sua casa perfumar com as primeiras alegrias de noivos o quarto, onde teem sempre de dormir, a saleta do trabalho, onde viverão juntos, o jardimsinho que os distrahirá nas horas de aborrecimento?

—Florian dentro de casa, Dr.—

—Ou Florian nos bosques do Bom-Jesus! Ora diga-me; que recordação podem ligar os dous a esse leito de hospedaria, onde se tem deitado um casal de noivos por semana, convencionalmente e só para obedecer a uma imposição do chic? Com que alegrias podem elles revestir depois o seu quarto, a sua casa, quando se recolherem quebrados já da vertigem voluptuosa, com os primeiros defeitos mutuamente reconhecidos, murchas as flores santas da illusão? Pois não lhe parece que a lua de mel deve ser uma iniciação augusta, com que se cimente o bem estar do lar, longe de ser uma iniciação mentirosa, com que se encobrem os primeiros defeitos e se envenenam os pacificos dias do futuro?

N'este momento o trem parava em frente do escriptorio do medico. Luiz Serra despediu-se:

—Discutiremos ainda, doutor, a sua doutrina{99} tem um realismo, capaz de estancar a mais copiosa fonte de lyrismo.—

—Se ella foi secante, deve confessar.

Riram-se; a esposa do medico apertou-lhe docemente a mão.