—Vontade? faz-se!... o senhor não está doente, Deus louvado...—

—Então que queres?

—Quero que coma, boa pergunta!...

E a Joaquina retirava o serviço da meza, curvando-se, arredondando os seus largos quadris, e deixando ver a brancura da meia, que se descobria atraz, n'uma provocação macia.

Abriram-se um pouco mais em intimidades, unindo-se no seu isolamento; o Jorge confiava-lhe pequenos planos e ella approvava ou reprovava com uma capacidade intelligente, que elle até ali sempre lhe desconhecera. Começou então a considerar a Joaquina uma mulher, um sêr quasi egual, capaz de faculdades affectivas, de intelligencia.

—parecia-lhe menos criada, superiorisava-a e experimentava uma certa satisfação egoista n'aquella descoberta.

A noite adiantava-se; a Joaquina dentro tinha{107} feito a arrumação da louça e viera perguntar.

—Se não queria mais nada...

—Não, podia-se deitar.

Viu-a retirar com um vagar pachorrento, seguindo-a instinctivamente com os olhos, surprehendendo-se de que nunca tal fizera e pareceu-lhe uma mulher fresca, lembrou-se da brancura da meia que ha pouco se lhe havia entremostrado e um desejo quente mordicou-o, esfervilhando-lhe no sangue. E para affugentar uma ideia fugaz, que lhe perpassou no pensamento, como se fôra uma mosca luminosa, levantou-se, resolveu ir deitar-se.