—Has-de comprar-me umas luvas, sim, quero-as de sete botões...—
—Certamente; de menos é chinfrim...—concordava, muito convencido. E brincando, n'um momento de humour, arrancou-lhe o livro.
—Ora que brincadeira tola!—disse estendendo os braços para o rehaver.—
—Ah, é tola, pois toma, vai buscal-o!... e n'um arremeço o livro voou pelo quarto, indo parar proximo da cama.
Ermelinda levantou-se pallida, muito séria, a sua vaidade ferida. Uma lagrima rolou-lhe por entre as pestanas.{116}
—Grosseiro—murmurou sem que elle ouvisse, e foi buscar o livro, sentando-se de novo, as costas voltadas, a vista divagando sobre a mesma pagina.
Mas a Joaquina chamara para o jantar, e os dous sahiram do quarto, a physionomia contrahida, carrancudos, intransigentes na sua seriedade. O jantar correu rapidamente, friamente, sem trocarem uma palavra; o Jorge sentia um desconforto glacial penetral-o, abafando a necessidade de palestras expansivas, coarctando-o, pesando sobre elle como uma atmosphera de chumbo.
Ermelinda apenas tocava nos pratos; comia pouco, um phrenesi colerico, atirando as travessas, servindo-se ella mesmo antes que o Alberto tivesse o constrangimento de servil-a.
A Joaquina pensava:
—Estão de trombas, os pombinhos!...