O Alberto bebia mais que o costume; umas libações longas, demoradas, esvasiando o copo d'uma só vez, e no fim um contrahir de face, um morder incisivo do labio, a mão tocando mecanicamente as guias do bigode, e um relancear de olhos para Ermelinda, furtivo, instantaneo, com uma scintillação de colera concentrada.
O Jorge não podia mais.
—Parece que estamos na semana santa, credo, fallem para ahi...—e experimentava uma conversa, um caso do dia, uma anedocta, que morria logo, amortecendo-se aos monossylabos d'Alberto, o unico que ainda lhe respondia.
Ermelinda sentia-se contrariada, indisposta, uma raivasinha secreta, amargurando-a, com{117} engulhos de lagrimas; levantou-se, uma grande necessidade de chorar, de estar só, de se julgar infeliz. E ao passar pela Joaquina, o lenço enxugava-lhe os olhos, que se avermelhavam, n'uma côr injectada de desesperos, humedecendo-se.
—Oh, menina, pois vale lá a pena chorar, quem é que não tem os seus arrufos; isso d'aqui a pouco já não é nada—consolou-a, muito ternamente, uma caricia de velha criada, que a trouxera ao collo.—
Mas ella aspera, cortante:
—Sabe que mais, metta-se com a sua vida—e desceu a escada, dirigindo-se para o quarto.
A Joaquina ficou de pé, assombrada, uma estupidez idiota na physionomia, entalada, como se sentisse um spasmo no esophago; e depois, com as lagrimas a bailarem-lhe nos olhos:
—É bem feito, grandissima burra, não lhe ganhasses tanta amizade.—
No seu quarto, Ermelinda desatou n'um largo choro.