—Era uma infeliz, uma desilludida... ah, quanto mais não valia o ter ficado solteira—

e assombreava com negro colorido o quadro da sua existencia, n'um appello á desgraça, ao infortunio; mas depois procurava consolar-se, desentranhava-se em affagos para comsigo mesmo, procurando esquecer, não fazer caso; e as palavras da Joaquina soavam-lhe ainda aos ouvidos, tornando-a reflexiva.

—Sim, era crueldade, quem é que não tinha os seus arrufos.—

Esta palavra sensibilisava-a, dando-lhe ainda{118} um perfume gentil de namorada, imaginando-se requestada por elle, muito estremecida.

—Foi o melhor tempo—suspirou.—

E a reminiscencia recordava-lhe essas horas do passado, aquelles enthusiasmos apaixonados d'elle, a verve cheia de fogo, a calcinação ardente da palavra.

—Oh, quanto a realidade era differente!... E o noivado, ah! o seu noivado!...

Uma recordação doce se lhe entornava na alma, perfumando-a, n'uma ébriedade feliz. Via o Alberto a seus pés, timido, como uma creança, segredando-lhe pedidos d'uma volupia embriagante, muito submisso, dizendo-lhe baixinho:—Adoro-te—; e a esta evocação tão acariciadora, quente como um arfar da atmosphera no estio, deixava cerrar os olhos, esquecendo o motivo de toda a sua colera e transportando-se com elle ao ceu da sua idealidade; assim disposta achava encantador—que elle viesse muito humilde, pedir-lhe o beijo do perdão, affagal-a n'uma reconciliação harmoniosa.

—Não lhe resistiria, não; mas tambem não queria ser a primeira a quebrar—dizia, ainda com resaibos da offensa recebida, entumecendo-se n'um grande orgulho de si propria.

O Alberto desceu; viu-a sentada na cadeira, a mão sustentando o queixo redondinho. Escovou ligeiramente o fato, poz o chapeu na cabeça, principiou a calçar as luvas. Ermelinda teve um pensamento de ciume.