«Podia não se offender, e custar-lhe. E não seria da minha parte loucura constituir-me rival do unico amigo verdadeiro que ainda encontrei?… (Movimento de Gonçalo.) Oh! não, não cuide que lhe quero forçar os segredos… não pense que foi generosidade…» Já que me obriga, digo-lhe tudo. Peço-lhe só que não seja severo. Ou venha dos annos ou do temperamento, o amor em mim é egual á musa, compraz-se no improviso. Rebenta em chammas, mas a chamma fulge e esvae-se como relampago… Depois… outra fraqueza ainda… é tão superior ás damas que tenho conhecido, a sr.^a D. Maria Joanna Galvão!… tão superior pela graça senhoril, pelo tracto do mundo e cultura do espirito!… (Pausa.) Encontrei-a, logo que cheguei, n'uma assembléa, em casa de sua tia D. Felicia onde me apresentaram… Ferviam os motes, e eu calado. Passei quasi todo o tempo escutando-a e reflectindo.
GONÇALO
Foi um estudo então?
BOCAGE
Um exame de consciencia. Intimida aquella distincção, subjuga aquella formosura, ordena respeitos aquella voz. Revoltou-se-me o coração contra similhante imperio… Se abomino todo o captiveiro!… Estava alli tambem, como esquecida, uma flor modesta, a afilhada da sr.^a D. Felicia. Com ser mimosa sua, era visivel a inferioridade da condição. Como, porquê, não sei… Para essa me voou a alma… Admira-se?…. Não posso supportar a idéa da dependencia, nem sequer em amor. Á dama opulenta e festejada que podia dar o pobre cadete, o poeta noviço? Ainda que me correspondesse… esmola seria a sua mesma preferencia. Com a donzella humilde succede o contrario… é ella a favorecida, e eu o generoso.—Prefiro estes amores… não tolero outros!
GONÇALO (olhando para a E.)
Tem muito empenho em se encontrar com o mercador?
BOCACE
Porquê?