Estava ajustando umas contas, e confesso que muito desejo concluir.

COMMENDADOR

Conclua, conclua. Não tenho pressa, e o meu amigo ainda não chegou.
Esperarei, se m'o permitte.

MANUEL SIMÕES

Está em sua casa. Dando-me licença, vou acabar. (comsigo.) E o tempo que já tenho perdido!… (como occorrendo-lhe.) Olha, Francisco… Vae lá abaixo ao armazem… abre a carteira… aqui tens a chave… (dá-lha) hasde achar ao canto da direita um masso pequeno, atado com um nastro encarnado. Manda-m'o aqui ao escriptorio, e a chave tambem… Pódem vir de roda para não incommodar o sr. commendador e o seu amigo, se já tiver chegado. (Francisco sae. Para o commendador.) Aproveito o obsequio, e abreviarei o que poder.

SCENA VIII

COMMENDADOR só, pouco depois MORGADO

COMMENDADOR (saboreando uma pitada)

Bem diziam os escriptores da gentilidade: estavam fóra de si os deuses quando inventaram o homem, e mal recobraram o tino desataram a rir pondo os olhos na sua obra. Tudo n'elle é vão. Vana mortalitas, como lhe chamava Plinio, o Historiador. Movem-se por um fio… (sentando-se) Tudo está em saber-lho atar. (Entra o morgado esboforido e derreado.) Chega a proposito, morgado… ia-me tardando… Que é isso?… Teve alguma coisa?… Aposto que fez das suas… Não quer domar esse genio!…

MORGADO (lisongeàdo)