Sr. morgado, não repita levianamente as maledicencias do vulgo, que se póde arrepender!—Quer verificar o resto da declaração? Conta n'ella a Simôa:—como estando já separada do marido a morgada da Torre da Palma, a filha della Simôa adoecéra;—como o capitão mór, em casa de quem a mesma Simôa nascêra e se criára, a reduzira a prometter-lhe que, se a creança morresse, lhe substituiria a filha d'elle e de D. Felicia, e faria passar por morta a herdeira, tudo isto para que os bens de Carregueiros passassem a varão;—como o escudeiro Luiz Manuel fôra mandado administrar uma herdade da casa ao pé de Olivença, até á morte do Capitão-mór, para que nem elle soubesse do segredo, de que a mulher ficava unica depositaria;—finalmente como a Simôa, levada das obrigações que devia á casa do Capitão-mór, tivera a fraqueza de ceder, e criára como sua a filha de D. Felicia, até que esta a mandou buscar já crescida cuidando ser a afilhada.—Está tudo claramente explicado, e devidamente datado e assignado.
MORGADO (subjugado)
Essa declaração passou das mãos da Simôa ás minhas… nunca a mostrei… nunca a larguei… Como é possível sem ser por artes sobrenaturaes…
COMMENDADOR
Tem innocencias!—Dei uma volta a Vayamonte. O cura é… É meu amigo. Não me podia negar a minuta do papel que elle mesmo escrevêra. (sentando-se de novo) Como iamos dizendo… O morgado vae a sua prima… mostra-lhe esse documento, e diz-lhe: «a supposta afilhada de sua tia D. Felicia é sua prima direita, e herdeira da casa de seu tio Capitão-mór. Este papel e este segredo valem dois terços da sua riqueza. É a unica prova. Se quizer que tal prova desappareça, case commigo. Nada tenho de Adonis; sou um tanto nescio; fallador insoffrivel e farfante rematado.» (Movimento do morgado) É tudo isto, é, morgado… e mais alguma coisa. (Como se proseguisse o discurso do morgado.) «Mas,—continuará,—rasgando este papel é como se lhe trouxesse em dote os vinculos de Fresnos e de Carregueiros.» O argumento conclue. Entra na ordem d'aquelles a que Cicero chamava: argumento premente. Ora como o tenente Gonçalo Mendo não é ainda coisa certa, e como ninguem perde de vontade dez mil cruzados de renda, sua prima fecha os olhos, convence-se, e o morgado casa. Com isso conta, e faz bem em contar. Nada mais solido, mais engenhoso e brilhante. Que pena, se apparecesse esta minuta, e pela data se visse que o sr. morgado tem ha oito mezes em seu poder a declaração, sem a entregar!… Era deitar tudo a perder!—Verdade, verdade; não vale quarenta mil cruzados?
MORGADO
Quarenta agora!…Trinta!…Tinha dito trinta!…
COMMENDADOR (abrindo a caixa)
Tinha? Enganei-me. Quem se não engana? Lucio Floro, da nobre familia dos Anneanos, conta que um engano decidiu uma batalha, e Seneca chama-lhe allucinatio para mostrar a perturbação mental que o determina (voltando-se mesmo sentado, inclinando-se sobre a esquerda, como para evitar que a pitada que vae sorver lhe macule a tira.) Foram quarenta, nem menos um real… E se hesita…
MORGADO (acudindo)