MORGADO

Não tenho tido mãos a medir, sr.^a D. Felicia, não tenho tido mãos a medir… Fui passar quatro dias ao pé da Arrabida… Não me deixava um amigo, homem poderoso, que tenho para aquelles sitios… Tudo por causa d'uma caçada de javardos… Sem mim não se podia fazer… Fui eu que dispuz os emprazadores. Fui eu que dirigi os couteiros. Fui eu que fiz chapear os cavallos por causa dos estrépes, e metter-lhes as çapatilhas e peitoraes de matto como é indispensavel. Fui eu que determinei a calcada… Finalmente, bateram-se duas moitas, e trouxemos nem menos de seis rezes grandes, uma cerva, dois vareiros e trez javardos… Só eu á minha parte, a tiro e á faca, matei sete.

COMMENDADOR (sorrindo)

Trouxeram seis, e matou sete!

MORGADO

É verdade. Perdeu-se um bique enorme… Sumiu-se no brejo que não foi possivel achal-o.

COMMENDADOR

Fez tudo o morgado. E os outros caçadores?

MORGADO (ao commendador)

Admiraram. (a D. Felicia) Antes de hontem passei a tarde n'uma academia de espada… (ao commendador) em casa de mestre Estevão da rua das Hortas… (á companhia) Ia lá um genovez de quem se diziam maravilhas. E com effeito é homem desembaraçado na arte. Tirou a melhor de quantos contenderam. Eu estava alli a vêr, e não queria assim sem mais nem menos entrar em assalto com um estrangeiro, que não sabe a gente quem é… Mas os amigos, que me tinham levado alli… provavelmente já de proposito… começam a dizer-me: «Sr. morgado, isto é uma vergonha para o reino!… Sr. morgado, só v. s.^a póde desaffrontar a nação!… Sr. morgado, isto são pontos d'honra!…» Atacaram-me pelo meu fraco… Não pude resistir… (fazendo menção de despir) Largo o josésinho… pego na espada… colloco-me no recto… Ao terceiro passe, o genovez tira-me de quarta a fundo… Paro de forte contra forte!… Faço um prendimento rapido… Estava desarmado o homem! (Gonçalo sorri.) Não é por me gabar: confessou elle mesmo que nunca vira pulso tão rijo, nem uma agilidade assim!