É o que eu queria dizer. O mote vem a ser tudo… Mais por aqui, mais por alli, é tudo o mote.—O mote é o assumpto; não havendo mote não ha assumpto; e ahi é que está! (satisfeito de si e com extrema volubilidade) Fazer versos sem assumpto não é para qualquer: tem de se tirar tudo da cabeça, assim de repente, do pé para a mão, sem mais nem mais. Tambem não sei porque se ha de pedir mote. Quando uma pessoa monta a cavallo não precisa de mote para fazer os piafés, e as curvetas, e as balotadas, e as garupadas; nem tão pouco se dá mote quando qualquer mette mão á espada, e entra a executar batiduras, ligamentos, juntamentos, cambiamentos, tentamentos, e esquivamentos. Eis ahi. Isto é que eu queria… Chegar um homem, não esperar por mais, nem esfregar a testa, nem pôr os olhos em alvo, bater as palmas e logo alli, zás… como quem deita um foguete de sete respostas!…

BOCAGE (atalhando e batendo as palmas)

Lá vae!

COMMENDADOR (sorrindo)

Sem assumpto?

BOCAGE

Está ahi defronte, o assumpto.

Famosa geração de falladores
Consta que foi, Morgado, a origem tua,
Que nem todos os cães, ladrando á lua,
Tiveram que fazer com teus maiores:

Um a lingua ensinou dos palradores;
Outro, o motu continuo achou na sua;
Outro, além de encovar toda uma rua,
Açaimou n'uma junta a cem doutores:

Teu avô, santanario venerando,
Soube mais orações que mil beatas,
Com reza impertinente os ceus zangando: