E não foi preciso mais!
D. MARIA JOANNA
Malicioso! (em tom mais jovial) Estes Argos interesseiros não os fecham nem de dia nem de noite. Não sei como fazem, que se fortalecem da vigilia, como os outros do repouso. Para qualquer lado que nos voltemos, lá estão elles com os madrigaes assestados. Cada protesto de respeito é uma atalaya dissimulada. Cada cumprimento é uma bayoneta posta ao peito para nos tomar o passo… E que severa inquisição!… Se olhamos, é leviandade; se rimos, inconstancia; se nos desviamos, desdem… se baixamos os olhos, é disfarce; se choramos, é fingimento; se estamos sisudas, é reserva… Até se nos encerramos, nos poem á porta a suspeita!… As mesmas illusões de uns, se fazem nos outros furibundas indignações. Suffoca-n'os um circulo insuperavel de cortezias insidiosas, de reverencias desconfiadas, e de homenagens hostis… (seriamente) e quando menos o pensamos, achamo-n'os envolvidas pela astucia, pela cubiça, pela perfidia… não poucas vezes pela calumnia!—Eis aqui a nossa independencia!… (no tom anterior) O cavalheiro de Florian ainda não conhecia o mundo!
GONÇALO (gracejando tambem)
Dês de quando faz essa idéa da independencia feminina?
D. MARIA JOANNA (gravemente)
Dês que uma protecção opportuna me libertou d'esse ambito oppressivo… cheio de laços e de perigos… e me fez respirar os ares limpos e sãos de um nobre e generoso affecto!… (com gentileza) Não sei se vacillava ainda… (dando-lhe a mão com meiga dignidade) Sei que d'esse instante para diante não vacillei mais.
GONÇALO (beijando-lhe a mão, e conservando-lh'a nas suas)
Desculpa um momento de irreflexão?
D. MARIA JOANNA (esquecendo a mão nas de Gonçalo)