N'huma noite de Verão,
E de bastante calor,
Encontrou-se co' hum Mosquito
A Pulga n'hum cobertor:{54}
Cumprimentárão-se muito
Co' a politica devida;
E disse a Pulga ao Mosquito:
Ando aqui desfalecida;
De vossa mercê me queixo,
Que do sustento me priva;
Estou tisica, e esfalfada,
Não sei como já sou viva:
Ando por cima de leitos,
Ando nas camas de chão;
Vem vossa mercê tocando,
Começa a minha afflicção;
Se dou alguma picada,
He sempre em sustos, e medos;
Porque temo de cahir
Na ratoeira dos dedos.
N'hum individuo, que dorme,
He onde janto, onde ceio;
Mas não me presta o que como,
Pelo meu justo receio:
Se lhe chupo n'huma perna
Sempre com cinco sentidos,
Vem logo a sua trombeta
Metter-se-lhe nos ouvidos.
Acorda o que está dormindo,
Dando a cantiga ao diabo;
Se me sente, põe-me o dedo,
E entre as unhas me dá cabo.{55}
Por tanto quero pedir-lhe
Tenha de mim compaixão;
Que toque á gente acordada,
Porém á que dorme não.
Ó filha, disse o Mosquito,
Eu tambem soffro, e padeço;
Pois levo ás vezes boléos,
Que da vida me despeço.
Dão bofetadas em si
Os que andão comigo em guerra;
E se me apanhão no lance,
Atirão comigo a terra.
Os desastres que me conta,
Por certo me mettem dó;
Mas he preciso tambem
Que não queira comer só.
Nestes termos, minha rica,
A vontade lhe farei;
Que engorde, e que viva farta,
He que eu muito estimarei.
Despedirão-se hum do outro:
E o Mosquito atraiçoado
Não fez nada do que disse,
Que he traidor dissimulado.
Perseguia a toda a gente;
A quem dormia acordava,
Por emulação á Pulga
Fazia o que costumava.{56}
A Pulguinha muito afouta,
Vendo hum homem a dormir,
Ferrou-se-lhe no cachaço,
Sem lhe lembrar o fugir.
O Mosquito pelos olhos
A zunir muito, e a morder,
Acordou o homem da sesta,
Para a Pulga surprender:
Que, coitadinha! espirou,
Acabando o seu flagello,
Entalada entre o sobrado,
E entre a sola de hum chinelo.
Daqui colligir se deve
Que quando a vingança cega,
Quasi sempre hum malfeitor
O seu semelhante entrega.


APÓLOGO.

O Burro, e a Ratazana.

Estava hum Burro comendo
Á noite a sua ração,
E huma velha Ratazana
Quiz ter com elle quinhão.{57}
Disse-lhe o Burro: Malvada,
Vai a outro sitio comer:
Não basta a ração ser pouca?
Mais pequena a vens fazer?
Respondeo-lhe a Ratazana:
Por hoje licença dá;
Que por estes oito dias
Prometto de não vir cá:
Eu sei mui bem que teu dono
Hum grande queijo comprou;
Espreitei onde o metteo,
E á manhã com elle dou:
Hei de fartar-me á vontade,
Roendo-lho muito bem:
Sei que a vizinha debaixo
Bolos n'huma cópa tem:
O criado, que te trata,
Tem lá n'huma parteleira
Hum grande monte de cebo
Junto dentro de huma ceira:
Lá pelas aguas furtadas
Já atinei co' huns buracos
Para saltar n'hum pombal,
E chupar pombos dos cacos.
Á vista das descubertas,
Que já hoje tenho feito,
Espero passar sem fome,
Com subtileza, e com geito,{58}
Foi tasquinhando a ração
Naquella doce esperança,
Co'a imaginada fartura
Sempre posta na lembrança.
Do Burro se despedio
Com affago, e cortezia;
E foi de rabo estendido
Para a cova, em que vivia.
Porém lá pela alta noite
Tornou depois a sahir,
E foi-se por certo atalho
Nas casas introduzir.
Andou em busca do queijo,
Porém já o não achou
No sitio, que imaginava,
Onde d'antes se guardou.
Voltou-se ao primeiro andar
Para os bolos da vizinha,
Basculhou a copa toda,
E nem hum só bolo tinha.
Cançada, raivosa, e triste
Ao quarto do moço veio;
E porque estava acordado,
Entrou com algum receio.
Saltou para a parteleira
Com o cebo no sentido;
Mas no dia antecedente
O tinha o moço vendido.{59}
A sahida deste quarto
Empreza foi arriscada;
Por se safar tão ligeira,
Não mammou huma arrochada.
Lá por outros escaninhos
Ao telhado caminhou,
Só para entrar no pombal,
Onde outras vezes entrou.
Mal que se pilhou de dentro,
Vio huns ninheiros mais baxos,
Ficou-lhe o olho luzindo
Co' o sentido nos borrachos.
O dono, que de outros ratos
Se via mais perseguido,
Pôz-lhe armada ratoeira
Com petisco appetecido.
Foi então que a Ratazana,
Não se podendo conter,
Cheirou-lhe a isca por fóra,
Quiz entrar dentro, e comer.
Deo voltas, metteo focinho;
Mas á dentada primeira
Ficou a pobre engasgada
Nos ferros da ratoeira.
Quanto esperava falhou,
E por mais infausta sorte,
Toda a alegria passada
Acabou nas mãos da morte.{60}


CONTO EPIGRAMMATICO.

Hum Author compunha hum livro,
Livros velhos folheando:
Perguntou-lhe hum seu collega:
Que estás ahi procurando?
Respondeo: Como não ha
Livro algum que tão máo seja
Que não tenha alguma cousa
Boa, que se note, e veja:
De cada hum tiro hum pouco.
Disto hum novo livro ageito
Ficando de cousas boas
Formado hum livro perfeito.
Desta lição eu quisera
Que os homens se aproveitassem,
De cada hum imitando
As virtudes, que lhe achassem.
O homem, que isto fizesse,
Hum grande brazão teria;
Ficava sendo hum compôsto,
Que ao Mundo exemplo daria.{61}


APOLOGO.