O Saloio, e huma Sorte de papel.

Vendo nas casas das Sortes
Premio de oitenta mil reis,
Foi hum Saloio comprar
Oito tostões de papeis:
E tudo desembrulhando
Hum Premio só não achou,
Repetio dobrando a dóze,
Da mesma sorte ficou:
Foi comprando mais e mais,
Quanto comprava perdia,
Gastou dezoito mil reis,
E delles nem bóia via.
Raivoso se foi á caixa,
Dizendo: Forte castigo!
Tirou mais seis tostões dellas,
Que era o que tinha comsigo:
Tambem lhe sahírão brancas,
E o homem desesperou;
Mas a ultima entre os dedos
Deste modo lhe fallou:
Saloio, quem quer que sejas,
Toma do mundo lição,
Todas as cousas pintadas
Como parecem não são;{62}
Não te illudas com os Premios,
Que he natural o falharem,
E nesse engodo emmagreces,
Para os outros engordarem:
Se o acaso der hum Premio,
Põe logo no pensamento,
Que para hum só ser feliz,
São desgraçados hum cento:
O que tira tres moedas,
Já veio vinte deixar,
E se inda não as largou,
He isca para as largar.
O que tira tres tostões,
Fica de nós muito amigo,
Sem ver que deixou o porco,
E leva a corda comsigo.
Os prudentes conceituão
Ser tudo isto huma Tragedia,
Que os felizes nestas casas
São como os Reis de comedia.
E porque em lojas de Sortes
Não gastes nem hum vintem,
Huns conselhos vou a dar-te,
Com os quaes te acharás bem.
Nao olhes para as Tabellas,
Nem os mais vejas jogar,
Que se algum tem sorte em preto,
A ambição te vai tentar;{63}
Olha sim, para a dinheiro,
Que está perdido no chão
Em sortes desembrulhadas
Da porta até ao balcão.
O Saloio respondeo:
Teu desengano me embaça,
Se se promettem fortunas
Onde se encontra a desgraça.
Á vista disto he razão
Que este vicio em mim se quebre,
Fugirei de toda a casa,
Que vende gato por lebre.{64}

Vindo ás mãos do Author huma Quadra bastantemente conceituosa, tentou glosala pelo seguinte modo:

QUADRA.

Dois Entes regem o mundo
Doce Amor, e Morte impía,
A Morte co' a fouce corta
Quanto Amor semêa, e cria.

GLOSA.

1.

Logo que foi construida
Esta Maquina brilhante,
Não falhou hum só instante
Na conta, pezo, e medida:
Nem podia ser falida
Obra de hum Saber profundo;
He seu creador segundo
O Tempo, que não faz pausa,
Por mando da Eterna Causa
Dois Entes regem o mundo{65}

2.

Hum he Amor, outro a Morte,
Cada qual com fortaleza,
Entre alegria, e tristeza,
Mudão dos Mortaes a sorte:
No que hum faz outro dá córte,
Que a desordem desafia,
Disputão de noite, e dia,
A qual mais poder encerra,
Andão sempre em viva guerra
Doce Amor, e Morte impía,