A Vida é uma princeza dolorosa no seu castelo de rubis e opalas, tanjendo ao poente em harpa silenciosa uma agonia de almas e de falas…
Colho de tuas mãos a triste rosa,
Vida que és sombra e sobre mim resvalas.
Passas, e em tua sombra a ondear saudosa
vagam fantasmas de desertas salas…
(Vozes perdidas, juramentos a esmo, passos que morrem sobre passos, sinos accórdam madrugadas em mim mesmo.
E entre trompas, tambores e metralha, claveharpas, orgãos, tubas e violinos a Vida e a Dôr começam a batalha…)
*III—Genese*
Antes a alma que tenho andou perdida, foi pedrouço a rolar pelo caminho, topazio, opala, perola esquecida num bracelete real; foi caule e espinho,
bronze que a mão tocou, aurea jazida por entre as ruinas de um paiz maninho, e reflectiu, fatal, o olhar da Vida no corpo em sangue de um estranho vinho…
Foi casco medieval, foi lança e escudo, foi luz lunar e errante de lanterna, e depois de exsurgir, triste, de tudo
veio para chorar dentro em meu ser a amarga maldição de ser eterna e a dôr de renascer quando eu morrer…