*Primeira*.—Breve será dia… Guardemos silencio… A vida assim o quer… Ao pé da minha casa natal havia um lago. Eu ia lá e assentava-me á beira d'elle, sobre um tronco de arvore que cahira quasi dentro de agua… Sentava-me na ponta e molhava na agua os pés, esticando para baixo os dedos. Depois olhava excessivamente para as pontas dos pés, mas não era para as ver… Não sei porquê, mas parece-me d'este lago que elle nunca existiu… Lembrar-me d'elle é como não me poder lembrar de nada… Quem sabe porque é que eu digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?…

*Segunda*.—Á beira-mar somos tristes quando sonhamos… Não podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremol-o sempre ter sido no passado… Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que ha mil vozes minimas a fallar. A espuma só parece ser fresca a quem a julga uma… Tudo é muito e nós não sabemos nada… Quereis que vos conte o que eu sonhava á beira-mar?

*Primeira*.—Podeis contal-o, minha irmã, mas nada em nós tem necessidade de que nol-o conteis… Se é bello, tenho já pena de vir a tel-o ouvido. E se não é bello, esperae…, contae-o só depois de o alterardes…

*Segunda*.—Vou dizer vol-o. Não é inteiramente falso, porque sem duvida nada é inteiramente falso. Deve ter sido assim… Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido que tinha pae e mãe e que houvera em mim infancia e outros dias—nesse dia vi ao longe, como uma cousa que eu só pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela… Depois ella cessou… Quando reparei para mim, vi que já tinha esse meu sonho… Não sei onde elle teve principio… E nunca tornei a ver outra vela… Nenhuma das velas dos navios que sahem aqui de um porto se parece com aquella, mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar…

*Primeira*.—Vejo pela janella um navio ao longe. É talvez aquelle que vistes…

*Segunda*.—Não, minha irmã; esse que vêdes busca sem duvida um porto qualquér… Não podia ser que aquelle que eu vi buscasse qualquér porto…

*Primeira*.—-Porque é que me respondestes?… Pode ser… Eu não vi navio nenhum pela janella… Desejava ver um e fallei-vos d'elle para não ter pena… Contae-nos agora o que foi que sonhastes á beira mar…

*Segunda*.—Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longinqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por ellas… Não vi se alguma vez pousavam… Desde que, naufragado, se salvára, o marinheiro vivia alli… Como elle não tinha meio de voltar á patria, e cada vez que se lembrava d'ella soffria, poz-se a sonhar uma patria que nunca tivesse tido; poz-se a fazer ter sido sua uma outra patria, uma outra especie de paiz, com outras especies de paysagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janellas… Cada hora elle construía em sonho esta falsa patria, e elle nunca deixava de sonhar, de dia á sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas, e não reparando nas estrellas.

*Primeira*.—Não ter havido uma arvore que mosqueasse sobre as minhas mãos estendidas a sombra de um sonho como esse!…

*Terceira*.—Deixae-a fallar… Não a interrompaes… Ella conhece palavras que as sereias lhe ensinaram… Adormeço para a poder escutar… Dizei, minha irmã, dizei… Meu coração doe-me de não ter sido vós quando sonhaveis á beira mar…