*Segunda*.—É talvez por não serem verdadeiras… Mal sei que as digo… Repito-as seguindo uma voz que não ouço que m'as está segredando… Mas eu devo ter vivido realmente á beira-mar… Sempre que uma causa ondeia, eu amo-a… Ha ondas na minha alma… Quando ando embalo-me… Agora eu gostaria de andar… Não o faço porque não vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se quer fazer… Dos montes é que eu tenho medo… É impossivel que elles sejam tão parados e grandes… Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que teem… Se d'esta janella, debruçando-me, eu pudesse deixar de ver montes, debruçar-se-hia um momento da minha alma alguem em quem eu me sentisse feliz…

*Primeira*.—Por mim, amo os montes… Do lado de cá de todos os montes é que a vida é sempre feia… Do lado de lá, onde mora minha mãe, costumavamos sentarmo-nos á sombra dos tamarindos e fallar de ir ver outras terras… Tudo alli era longo e feliz como o canto de duas aves, uma de cada lado do caminho… A floresta não tinha outras clareiras senão os nossos pensamentos… E os nossos sonhos eram de que as arvores projectassem no chão outra calma que não as suas sombras… Foi decerto assim que alli vivemos, eu e não sei se mais alguem… Dizei-me que isto foi verdade para que eu não tenha de chorar…

*Segunda*.—Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar… A orla da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas… Eu era pequena e barbara… Hoje tenho medo de ter sido… O presente parece me que durmo… Fallae-me das fadas. Nunca ouvi fallar d'ellas a ninguem… O mar era grande demais para fazer pensar nellas… Na vida aquece ser pequeno… Ereis feliz minha irmã?.

*Primeira*.—Começo neste momento a tel-o sido outr'ora… De resto, tudo aquilo se passou na sombra… As arvores viveram-o mais do que eu… Nunca chegou quem eu mal esperava… E vós, irmã, porque não fallaes?

*Terceira*.—Tenho horror a de aqui a pouco vos ter já dito o que vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as diga, pertencerão logo ao passado, ficarão fóra de mim, não sei onde, rigidas e fataes… Fallo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente… Tenho um medo maior do que eu. Sinto na minha mão, não sei como, a chave de uma porta desconhecida. E toda eu sou um amuleto ou um sacrario que estivesse com consciencia de si-proprio. É por isto que me apavora ir, como por uma floresta escura, atravez do mysterio de fallar… E, afinal, quem sabe se eu sou assim e se é isto sem duvida que sinto?…

*Primeira*.—Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!… Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso… Fallae portanto, sem reparardes que existis… Não nos ieis dizer quem ereis?

*Terceira*.—O que eu era outr'ora já não se lembra de quem sou… Pobre da feliz que eu fui!… Eu vivi entre as sombras dos ramos, e tudo na minha alma é folhas que estremecem. Quando ando ao sol a minha sombra é fresca. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes, onde eu molhava, quando sonhava de viver, as pontas tranquillas dos meus dedos… Ás vezes, á beira dos lagos, debruçava-me e fitava-me… Quando eu sorria, os meus dentes eram mysteriosos na agua… Tinham um sorriso só d'elles, independente do meu… Era sempre sem razão que eu sorria… Fallae-me da morte, do fim de tudo, para que eu sinta uma razão p'ra recordar…

*Primeira*.—Não fallemos de nada, de nada… Está mais frio, mas porque é que está mais frio? Não ha razão para estar mais frio. Não é bem mais frio que está… Para que é que havemos de fallar?… É melhor cantar, não sei porquê… O canto, quando a gente canta de noite, é uma pessoa alegre e sem medo que entra de repente no quarto e o aquece a consolar-nos… Eu podia cantar-vos uma canção que cantavamos em casa de meu passado. Porque é que não quereis que vol-a cante?

*Terceira*.—Não vale a pena, minha irmã… Quando alguem canta, eu não posso estar commigo. Tenho que não poder recordar-me. E depois todo o meu passado torna-se outro e eu chóro uma vida morta que trago commigo e que não vivi nunca. É sempre tarde de mais para cantar, assim como é sempre tarde de mais para não cantar…

(uma pausa)