*Primeira*.—Minha irmã, em mim tudo é triste. Passo dezembros na alma… Estou procurando não olhar para a janella… Sei que de lá se vêem, ao longe, montes… Eu fui feliz para além de montes, outr'ora… Eu era pequenina. Colhia flôres todo o dia e antes de adormecer pedia que não m'as tirassem… Não sei o que isto tem de irreparavel que me dá vontade de chorar… Foi longe d'aqui que isto pôde ser… Quando virá o dia?…

*Terceira*.—Que importa? Elle vem sempre da mesma maneira… sempre, sempre, sempre…

(uma pausa)

*Segunda*.—Contemos contos umas ás outras… Eu não sei contos nenhuns, mas isso não faz mal… Só viver é que faz mal… Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes… Não, não vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho… Neste momento eu não tinha sonho nenhum, mas é-me suave pensar que o podia estar tendo… Mas o passado—porque não fallâmos nós d'elle?

*Primeira*.—Decidimos não o fazer… Breve raiará o dia e arrepender-nos-hemos… Com a luz os sonhos adormecem… O passado não é senão um sonho… De resto, nem sei o que não é sonho… Se ólho para o presente com muita attenção, parece-me que elle já passou… O que é qualquer cousa? Como é que ella passa? Como é por dentro o modo como ella passa?… Ah, fallemos, minhas irmãs, fallemos alto, fallemos todas juntas… O silencio começa a tomar corpo, começa a ser cousa… Sinto-o envolver-me como uma nevoa… Ah, fallae, fallae!…

*Segunda*.—Para quê?… Fito-vos a ambas e não vos vejo logo… Parece-me que entre nós se augmentaram abysmos… Tenho que cançar a idéa de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos… Este ar quente é frio por dentro, naquella parte que toca na alma… Eu devia agora sentir mãos impossiveis passarem-me pelos cabellos… As mãos pelos cabellos—é o gesto com que fallam das sereias… (Cruza as mãos sobre os joelhos. Pausa.) Ainda ha pouco, quando eu não pensava em nada, estava pensando no meu passado…

*Primeira*.—-Eu tambem devia ter estado a pensar no meu…

*Terceira*.—Eu já não sei em que pensava… No passado dos outros talvez…, no passado de gente maravilhosa que nunca existiu… Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho… Porque é que correria, e porque é que não correria mais longe, ou mais perto?… Ha alguma razão para qualquer cousa ser o que é? Ha para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?…

*Segunda*.—As mãos não são verdadeiras nem reaes… São mysterios que habitam na nossa vida… Ás vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus… Não ha vento que mova as chammas das velas, e olhae, ellas movem-se… Para onde se inclinam ellas?… Que pena se alguem pudesse responder!… Sinto-me desejosa de ouvir musicas barbaras que devem agora estar tocando em palacios de outros continentes… É sempre longe na minha alma… Talvez porque, quando creança, corri atraz das ondas á beira-mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, maré-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estatua de anjo para que nunca mais ninguem olhasse…

*Terceira*.—As vossas phrases lembram-me a minha alma…