*Primeira*.—Não sei. Porque o havia eu de saber?

(uma pausa)

*Segunda*.—Todo este paiz é muito triste… Aquelle onde eu vivi outr'ora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada á minha janella. A janella dava para o mar e ás vezes havia uma ilha ao longe… Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquillo que talvez eu nunca fôsse…

*Primeira*.—Fóra de aqui, nunca vi o mar. Alli, d'aquella janella, que é a unica de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!… O mar de outras terras é bello?

*Segunda*.—Só o mar das outras terras é que é bello. Aquelle que nós vemos dá-nos sempre saudades d'aquelle que não veremos nunca…

(uma pausa)

*Primeira*.—Não diziamos nós que iamos contar o nosso passado?

*Segunda*.—Não, não diziamos.

*Terceira*.—Porque não haverá relogio neste quarto?

*Segunda*.—Não sei… Mas assim, sem o relogio, tudo é mais afastado e mysterioso. A noite pertence mais a si-propria… Quem sabe se nós poderiamos fallar assim se soubessemos a hora que é?