*Terceira*.—Que voz é essa com que fallaes?… É de outra…
Vem de uma especie de longe…

*Primeira*.—Não sei… Não me lembreis isso… Eu devia estar fallando com a voz aguda e tremida do mêdo… Mas já não sei como é que se falla… Entre mim e a minha voz abriu-se um abysmo… Tudo isto, toda esta conversa, e esta noite, e este mêdo—tudo isto devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que nos dissestes… Começo a sentir que o esqueço, a isso que dissestes, e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para exprimir um horror de aquelles…

*Terceira* (para a Segunda).—Minha irmã, não nos devieis ter contado essa historia. Agora extranho-me viva com mais horror. Contaveis e eu tanto me distrahia que ouvia o sentido das vossas palavras e o seu som separadamente. E parecia-me que vós, e a vossa voz, e o sentido do que dizieis eram trez entes differentes, como trez creaturas que fallam e andam.

*Segunda*.—São realmente trez entes differentes, com vida propria e real. Deus talvez saiba porquê… Ah, mas porque é que fallamos? Quem é que nos faz continuar fallando? Porque fallo eu sem querer fallar? Porque é que á não reparamos que é dia?…

*Primeira*.—Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me a gritar dentro de mim, mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta. Sinto uma necessidade feroz de ter mêdo de que alguem possa agora bater àquella porta. Porque não bate alguem á porta? Seria impossivel e eu tenho necessidade de ter mêdo d'isso, de saber de que é que tenho mêdo… Que extranha que me sinto!… Parece-me já não ter a minha voz… Parte de mim adormeceu e ficou a vêr… O meu pavôr cresceu mas eu já não sei sentil-o… Já não sei em que parte da alma é que se sente… Puzeram ao meu sentimento do meu corpo uma mortalha de chumbo… Para que foi que que nos contastes a vossa historia?

*Segunda*.—Já não me lembro… Já mal me lembro que a contei… Parece ter sido já ha tanto tempo!… Que somno, que somno absorve o meu modo de olhar para as cousas!… O que é que nós queremos fazer? o que é que nós temos idéa de fazer?—já não sei se é fallar ou não fallar…

*Primeira*.—Não fallemos mais. Por mim, cança-me o esforço que fazeis para fallar… Dóe-me o intervallo que ha entre o que pensaes e o que dizeis… A minha consciencia boia á tona da somnolencia apavorada dos meus sentidos pela minha pelle… Não sei o que é isto, mas é o que sinto… Preciso dizer phrases confusas, um pouco longas, que custem a dizer… Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende?

*Segunda*.—Não sinto nada… Sinto as minhas sensações como uma cousa que se não sente… Quem é que eu estou sendo?… Quem é que está fallando com a minha voz?… Ah, escutae…

*Primeira e Terceira*.—Quem foi?

*Segunda*.—Nada. Não ouvi nada… Quiz fingir que ouvia para que vós suppozesseis que ouvieis e eu pudesse crêr que havia alguma cousa a ouvir… Oh, que horror, que horror intimo nos desata a voz da alma, e as sensações dos pensamentos, e nos faz fallar e sentir e pensar quando tudo em nós pede o silencio e o dia e a inconsciencia da vida… Quem é a quinta pessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe sempre que vamos a sentir?…