*Primeira*.—Para quê tentar apavorar-me?… Não cabe mais terror dentro de mim… Peso excessivamente ao collo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que supponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquer cousa que m'os pega e m'os vela. Pesam as palpebras a todas as minhas sensações. Prende-se a lingua a todos os meus sentimentos. Um somno fundo colla uma ás outras as idéas de todos os meus gestos… Porque foi que olhastes assim?…

*Terceira* (numa voz muito lenta e apagada).—Ah, é agora, é agora… Sim, acordou alguem… Ha gente que acorda… Quando entrar alguem tudo isto acabará… Até lá façamos por crêr que todo este horror foi um longo somno que fomos dormindo… É dia já… Vae acabar tudo… E de tudo isto fica, minha irmã, que só vós sois feliz, porque acreditaes no sonho…

*Segunda*.—Porque é que m'o perguntaes? Porque eu o disse? Não, não acredito…

Um gallo canta. A luz, como que subitamente, augmenta. As trez veladoras quedam-se silenciosas e sem olharem umas para as outras.

Não muito longe, por uma estrada, um vago carro geme e chia.

11/12 Outubro, 1913.

FERNANDO PESSÔA.

*TREZE SONETOS*

DE
ALFREDO PEDRO GUISADO