Não sei quem és… Meus olhos esquecidos
Sentem-te em mim, dormir nos meus sentidos…
Meus sentidos, arcadas sôbre rios…

SALOMÉ

I

Dançava Salomé sôbre mistérios idos.
—Tarde bronze a morrer. Poente em véus vermelhos—
Os seus sentidos, longe, eram bailados velhos,
E o seu Corpo, a bailar, é que era os seus sentidos.

Dançava Salomé nas suas mãos morenas
Que eram salões de seda, a descerrar o hábito.
E Ela quando se via era o seu próprio hálito,
E o Corpo no bailado era uma curva apenas.

Dançava Salomé.—E os seus olhos ao vê-la,
Cerravam-se leões com mêdo de perdê-la,
Leões bebendo luz na luz dos olhos seus…

Não vejo Salomé.—Talvez adormecida…
Talvez no meu olhar Ausência dolorida…
Talvez boca pagã beijando as mãos de Deus…

II

Deus, longo cais em mim, donde outras naus singrando
Conduzem para o Longe o meu não existir.
Morena, Salomé, entre vitrais bailando.
Arcadas-sensações transpondo o seu Sentir.

Fita paisagens-Ansia em suas mãos cansadas,
Paisagens a sonhar castelos nunca erguidos.
E os lábios percorrendo em lume os seus sentidos,
Scismam príncipes-Côr descendo das arcadas.