A amazona negra era bella como o sol e triste como o luar, e ninguem acredita mas era pastora de galgas. Figura negra muito esguia, cypreste procurando vaga na margem do caminho.

Nas manhãs de Outomno, frias como os degraus do tanque, era Ella quem largava ás galgas a lebre cinzenta, e a que a filásse já sabia com quem dormia a sésta. E as galgas já nem dormiam bem noutra almofada.

Sobre a relva, na sombra arrendilhada das folhas amarellecidas dos plátanos onde os repuxos do tanque cuspiam lagryrnas de vidro, a Amazona negra sonhava o seu Principe encantado e a galga do dia dormia quieta, estendido o focinho no ventre d'Ella.

Uma manhã mais turva as galgas todas voltaram tristes, de focinhos pendidos—e nenhuma para dormir a sésta!

Uma flauta triste vinha de viagem pelo caminho; chorava de seguida imensas canções de choros e tinha acompanhamentos funéreos de guisalhádas surdas.

Callou-se a flauta, um cypreste distante gemia baixinho as dôres da tatuagem que lhe iam abrindo no peito. O pastor lembrava ali o nome do seu Bem. Pendia-lhe da cinta uma lebre cinzenta e a funda torcida.

As galgas como settas deixaram nú o caminho. E as guisalhadas…

*MIMA FATAXA*

Ella marcára-lhe na vespera aquelle rendez-vous no muro do cemiterio. De feito Elle tornara escrava de uma cigana a sua alma apaixonada de uma rainha loira senhora de todas as ciganas. Fôra d'Ella desde o dia em que, seguindo o ritmo acanalhado das ancas desconjuntadas, ficou enfeitiçado por aquelles dentes brancos ferindo lume no colar de pederneiras. Sentiu desejos de morder aquelles labios ardendo vermêlhos incendios de beijos e as faces fumadas do lume d'aquella bocca. E estranhava o seu coração vencido pela monotonia dos berros das cantorias com acompanhamentos de urros de pandeiro. Enfeitiçara-o aquella vagabunda de olhos ardidos compondo as tranças nos fundos dos caldeirões de cobre onde durante o sol um tisnado cigano consumia as horas em maçadôras marteladas. Encantára-o aquella feiticeira afiando as tranças nos labios molhados da saliva. E nas danças o tic-tac metalico das sandálias, matrácas tagarélas a cantar nas lágens, tinha um telintar jovial; e os pulsos cingidos de guizos eram um concerto de amarellos canarios contentes da gaiola.

E mais bella do que nunca no chafariz real, de saias arregaçadas, a lavar as pernas da poeira das estradas e bellamente descomposta a enfiar as meias muito grossas, vermêlhas da côr das papoulas, e a dár um nó-cego num retorcido nastro branco muito negro á laia de liga muito acima do joelho… E tem graça que a sua morenez não era por via do sol, pois toda ella era queimada. Quem a visse trepar nas amoreiras e despi-las das amóras que lhe ensanguentavam os labios e as faces e os dedos sem cuidar no vento que lhe levanta as saias, teria tido como Elle um sorriso de desejos, iria como Elle fingir a sésta por debaixo da linda amoreira.