E na descida, co'a saia erguida á laia de cabaz, meio tonta, meio embriagada p'las amóras em demasia, vê-la-hia tão bella como em sonhos se desenha uma mulher para nós. E escarranchada no tronco deixava-se escorregar lentamente, mas teve subida forçada por via da haste que ficava em riba. Depois dependurou-se de um galho rijo, abriu as mãos e foi de vez chapar-se na relva. E de bruços, como uma cabra a espojar-se, começou de juntar os fructos espalhados. E os seus olhos de gata, de gata que brinca nos telhados vermêlhos com a lua branca, mais do que amóras colhiam.

*A SOMBRA*

(TRADUCÇÃO DE UM POEMA DE UMA LINGUA DESCONHECIDA)

Foi ali que um dia sentiu desejos de partir tambem. Que ficava fazendo sósinha? Quem leva uma lança, leva a mulher tambem.

O seu châle negro tem um segredo, e o seu mal de morte vem do mesmo dia.

Os annos correram sem nóvas algumas, e as môças finaram-se velhas, velhas de tanto esperar.

E todas as noites, na margem sombria, uma silhueta franzina de tragica sonambula vae seguindo, como um braço murcho de cypreste a boiar ao de cima da corrente que o vae levando-mansamente.

*A SÉSTA*

Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella não dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sôno, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente ainda mais o sôno a mal-resonar.

Junto d'Ella, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos redondos e lizos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ella acordou cançada de tanto sôno fingir.