Pouco depois levantaram-se e desceram juntos a Avenida e foi então que o velhinho dos bilhetes começou a comprehender a marósca da gorgêta.
Quanto mais desciam a Avenida mais ella se ia sentindo mal com aquella mão impertinente do senhor Barbosa a apertar-lhe o braço e a fallar-lhe tão convictamente do tal primo ministro do fomento que se via perfeitamente que era historia. Era porque tinha tido muito que fazer por causa da declaração de guerra não era por se ter esquecido com certeza, que elle era muito attencioso coitado!
—A sua mamã? perguntou de novo o senhor Barbosa. Ella ia pra responder quando se ouviram immensos vivas mêsmo alli d'aquelle lado. Escutaram, só se ouviam vivas; os morras eram impares. Escutaram melhor e então todos queriam que a França vivêsse e atiravam os bonets ao ar. Outros davam cambalhotas e quando passavam ao pé dos policias faziam achata o béque! Depois houve um viva á guerra e toda a gente deu palmas, de cima das arvores, empoleirados nos electricos, nos apertões e calçados e descalços e policias e mulheres. O senhor Barbosa subiu acima de um banco ao lado dos canteiros e gritou com o côco a cair: Viva a Gállia! e a multidão assim lisongeiada ergueu em triumpho aos hombros o senhor Barbosa, que ia pedindo encarecidamente pra que lhe apanhassem o côco.
Por fim n'aquella falta de luz, ella apenas viu distante d'ella um policia que tinha um côco na mão.
Contente por a multidão lhe ter roubado o senhor Barbosa ia rindo pra si num entrecortado de arrôtos de pinhões da mulher do capilé. Mas depois veiu-lhe a tristeza, aquelle aborrecimento que não se explica que só se sente, que dá vontade de ir dormir pra casa e ficar sempre, sempre a dormir e nunca mais fallar a ninguem. Meditava no mau passo que a mãe dera co'o grumête do S. Raphael e recordava os tempos impossiveis da engommadoria. E sentia-se uma eleita na infelicidade, n'esta coisa de não querer viver e ter mêdo de se matar e ainda por cima o rapaz que a enganou tinha embarcado pra Lourenço Marques e tinha mandado dinheiro a uma d'essas pra se lhe ir juntar a elle. Não que ella sentisse saudades d'elle ou de qualquer outro porque ella sabia muito bem que nascêra assim sem poder gostar de ninguem; pra ella tudo era o que não lhe importava. Admirava-se até de se ter deixado levar por aquelle maldito caixeiro que nem sequer tinha bigode. Mas tambem, pensava, se não fôsse elle seria outro e elle foi exactamente um qualquer. Não ha theoria mais comoda do que o fatalismo, porèm, ella usava-o não por comodidade mas por temperamento indiferente. As trovoadas se eram de dia achava ella que deveria ser á noite por causa dos relampagos mas se eram de noite achava estupidez tanto barulho com tanta vontade de dormir. Pra ella não havia differenças de especie alguma—nunca quiz mais aos garôtos por andarem descalços nem lhe invejavam as que tinham automovel. Mesmo esta coisa de almoçar e jantar era só se tivesse fóme, de resto dormir é que era bom. A vida não lhe era muito difficil nem tão pouco muito facil era justamente aquillo—como um carro do Dafundo que vem á Rotunda e volta depois pró Dafundo. E diga-se de passagem o caixeiro tinha-lhe feito um grande favor. E como era assim uma meúda que entra facilmente no gôsto de toda a gente e só lá de vez em quando é que precisava de umas brise-brise mais modernas ou umas fitas de setim pra enfeites de camisas não teria que se esfalfar muito e bem pelo contrario era rara a noite em que não rezava sósinha o seu Padre-Nosso no quarto independente com porta pra escada.
+IV+
Eu tinha-a encontrado quando passava e tinha-lhe dito boas-tardes porque me pareceu que ella precisava de que alguem que ella não conhecêsse lhe desse as boas-tardes. E assim foi. Ella teve um sorriso que eu não gostei mas que era precisamente o que ella devia ter depois de eu lhe dar as boas-tardes. Nada me encantava n'ella, nem aquelle arremêdo da moda tão ingenuo e inconsciente que lembrava os quartos andares na Estephania ou os proprios figurinos desenhados que veem de Paris, nem o seu quê de jovem que brilhava na saliva por entre os dentes, nem mesmo o seu incognito que não iria álem de um par de meias de sêda estreiadas a semana passada.
Tudo n'ella tinha um limite de grande saldo ou de abatimentmos por motivo d'obras. A não ser os olhos que tinham uma sentillação meridional de beiramar com dramas de marujos d'aqui a alguns annos, a sua bocca e o seu nariz e toda a sua proporção tinham uma bitola resumida que nem dá direito a reforma. E d'ahi, poderia ser! mas nem foi a curiosidade que me deteve foi aquillo de eu lhe dar as boas-tardes e seguir. Mais adeante tive vontade de voltar atraz, mas nem me lembrava d'ella, e voltei. Foi ella quem me deu as boas-tardes e com um sorriso que lhe mudára completamente toda a figura. Chegou-se perto e disse que me conhecia da Figueira da Foz e se eu ainda namorava aquella menina que era tão loira e tão galante. N'aquelle momento eu tive a impressão de que a Figueira era o unico sitio do mundo inteiro onde eu nunca tinha estado mas quando ella me perguntou pelo Marquez o senhor meu papá não tive outro remedio senão dizer-lhe que estava muito bem e que se recommendava. Disse-me com as mãos nas ancas que não desfazendo achava o Marquez senhor meu papá um personagem illustre e tirou as mãos das ancas. O que era pênna era elle ser tão jogador mas tambem isso não era o que lhe iria fazer moça nas rendas. Perguntou-me se elle ainda usava monóculo e quiz certificar-se se era no esquerdo se no direito que elle costumava usar e apesar de eu lhe ter dito resolutamente que isso era conforme o seu estado de espirito ella disse que pois a ella lhe queria parecer que era no esquerdo.
Quando depois de varios qui-proquós de comedias em tres actos eu lhe respondi sobre as grandes fortunas e várias do Marquez senhor meu papá ella metteu pelintramente o pedido de trinta réis pró electrico. Devia ter sido um bello ponto final mas os taes trinta réis não eram pró electrico d'ella eram pró electrico onde eu fôsse com ella porque só tinha trinta réis.
—Então vamos já!